SEMIFINAL
CAMPEONATO BRASILEIRO
1975
FLUMINENSE
0 x 2 INTERNACIONAL
Texto
maravilhoso
escrito por um torcedor do Fluminense, sobre um
partidaço ocorrido no Estádio do Maracanã em 7 de dezembro de
1975, vencida
pelo Inter
e que marcou
a
semifinal do Campeonato
Brasileiro
daquele
ano.
O
MAIS INTERNACIONAL DOS TIMES NACIONAIS
“A
festa estava armada. O domingo já anunciava o fim da primavera e
antecipava aceleradamente o verão para o biênio 75/76: este seria
vibrante! E nada melhor como receber a chegada do verão, vestido com
a faixa de campeão brasileiro novamente. Articulamos, logo após a
quarta feira anterior quando aniquilamos um dos postulantes ao
título, como seria a derradeira movimentação rumo ao título do
então Campeonato Nacional. Seria nosso segundo oficial, visto que
meia década antes havíamos conquistado o torneio Roberto Gomes
Pedrosa, a Taça de Prata como este era conhecido. Dávamos como
certa a participação na grande decisão. Nada nos impediria. Nenhum
time nacional poderia interpor-se entre nós e o título de campeão.
Nenhum!
Esquecemo-nos
que nem só de ‘nacionais’ era composta a tabela de times
participantes do campeonato.
“ -
Não se esqueça do pó de arroz, Palhaninho”, gritava ao telefone
meu amigo Ferreira quando pela manhã nos falamos e planejávamos os
apetrechos para a grande partida. Jair, mais conhecido como ‘Ezequiel
– O Profeta’, vaticinava que sairíamos roucos do Maracanã de
tanto que comemoraríamos os gols que ‘A Máquina’ produziria em
escala industrial. ‘Mickey’, apelido do meu querido amigo Zé
Carlos Morelli, lembrava-nos que cinco anos antes o gol que nos dera
o título de campeão brasileiro havia sido marcado pelo artilheiro
de nome igual a sua alcunha, e que fora em razão deste gol que ele
recebera o apelido, pois passara a pedir, nas partidas de futebol
disputadas no campo do Clube Confiança a partir de então, que
cruzassem a bola igual a que fora cruzada na partida do título para
que ele pudesse repetir o mergulho que Mickey, o jogador autor do gol
do título, dera. E cabeceando magistralmente a bola, colocou-a para
dentro da rede adversária dando-nos o desejado título de campeão.
Não haveria surpresa: o título nacional seria nosso! Já tinha
dono.
Esquecemo-nos
que nem só de ‘nacionais’ era composta a tabela de times
participantes do campeonato.
Concentramo-nos
em minha casa. Perto do estádio e com amplo quintal, exercitávamos
o desfraldar das bandeiras em ritmado balé da vitória enquanto
sorríamos a ostentação da certeza que denuncia os vencedores, numa
clara preparação da marcha que faríamos até o grande templo, o
Estádio Mario Filho, o Maracanã de tantas glórias vividas por nós,
ainda jovens torcedores mas já acostumados aos entorpecentes efeitos
das conquistas. Não nos importava que o adversário, em jogo
realizado em seu campo, aplicara-nos uma vitória límpida e
insofismável; talvez a única deste porte em todo decorrer do
campeonato. Comentei com Evandro, mais sensato que os demais:
“ -
O time deles impõe respeito. Tem jogadores de alto nível. E um
deles conhecemos bem”. Referia-me ao ponta esquerda Lula. Durante
6/7 temporadas defendera nossas cores, fora nosso mais destemido
aliado, autor de jogadas que geraram gols nas finalizações por
nossos atacantes bem como gols feitos diretamente, inclusive o que
nos deu a conquista de um campeonato. Conhecíamos
bem seus dotes, o que me preocupava até porque no comando do ataque
outro ex-tricolor, Flávio Minuano. Juntos nos deram muitas, muitas
vitórias. Agora estariam contra nós. Coisas da vida, do destino.
Aliados aos grandes jogadores que compunham a equipe adversária,
goleiro, zagueiro e meio-campistas tínhamos que não imaginar logro
fácil e nos preparar para uma partida ‘osso duro de roer’.
Evandro
não discordou, olhou para mim sério e torcendo os lábios em clara
manifestação de apreensão deixou escapar que só a presença de
craques não daria a vitória a nenhum dos dois times. Esta viria com
a apresentação de um componente acima das capacidades individuais
dos grandes jogadores; acima da experiência dos outros consagrados
por conquistas históricas; acima da voluntariedade heroica de
outros jogadores. Ela, a vitória, a conquista da vaga para a grande
final viria em um item até então pouco utilizado em nossa cultura
na prática de esportes coletivos: viria da união entre o
virtuosismo, a sagacidade empírica e a determinação. Viria da
solidariedade!
Embora
concordássemos nos cuidados, confiantes éramos na certeza da
conquista. Já havíamos decifrado, acreditávamos, as armadilhas que
nos impuseram na derrota sofrida quando lá, nas terras do
adversário, estivemos. E a certeza que nenhum time ‘nacional’
tinha competência para nos vencer, sedimentava-se.
Esquecemo-nos
que nem só de ‘nacionais’ era composta a tabela de times
participantes do campeonato.
O
jogo foi dos mais maravilhosos que assisti em toda minha vida.
Parecia que estávamos em um grande festival de música com
orquestras harmoniosamente ensaiadas; de dança, onde os dançarinos
flutuam sobre o palco; de declamação de poesia, com poetas que nos
enternecem a alma com seu lirismo, tal qual a qualidade dos atores
envolvidos na apresentação daquela belíssima partida de futebol.
Aos poucos a confiante torcida, por mim e meus compadres, passou a
não ser tão confiante assim, como era no início do jogo.
Impossível não ser contagiado pelo futebol daquele adversário que
jogava ao som harmonioso ao tocar na bola, com passos de valsa ao
trocarem de posições em suas jogadas tão ensaiadas e finalizarem
ao gol com a poesia dos sonetos ritmados.
Tentavam nossos jogadores
acompanhar a performance que exibiam nossos adversários mas, talvez
tão embevecidos, como nós torcedores, assistissem encabulados,
tímidos em tentar o que viam com excelência ser praticado pelo
adversário. Era apenas a componente que ditaria o curso do vencedor:
a solidariedade.
Nossos jogadores eram virtuosos, experientes e
determinados; mas de forma isoladas, sem elo.
Dois
gols assistimos eu, meus compadres e todos os demais, quase 100 mil
pessoas. Hoje, plateia impensável; lá, ainda pouco pelo que o mais
internacional de estádios nacionais mundo afora poderia receber.
Dois gols em verdadeiros conjuntos de virtuosismo, experiência e
determinação; dois gols que nos fizeram lembrar que nenhum time
entre todos os ‘nacionais’ poderia nos vencer; dois gols sendo o
primeiro de Lula, justo Lula!; dois gols que nos
fizeram lembrar que nem só de times ‘nacionais’ era composta a
tabela de times participantes do campeonato:
havia um time Internacional!
Havia um Internacional para desfilar na
passarela, no campo do mais internacional dos estádios de futebol. E
havia um time que não poderia ser outro qualquer a ser o coadjuvante
desta apresentação. Um time que protagonizava qualquer outra
apresentação, mas que reconhecia a presença do Internacional,
adversário naquela tarde de domingo já perto do final da primavera,
que trazendo o calor e o brilho do sol de verão mantinha a beleza
das flores primaveris.
“ -
Palhaninho, por que não estou triste com a derrota?”
“ -
Porque não fomos derrotados” disse de forma plácida a meu amigo
Ferreira. “As derrotas pertencem aos que, perante os fracos, não
os superam. Enfrentamos uma força superior. E o fizemos com legítima
propriedade. Enfrentamos uma força Internacional!”
Assistimos
no domingo seguinte a consagração deste Internacional. O vencedor
do campeonato nacional de futebol possuía a internacionalidade de
sê-lo”.
Álvaro
Palhano de Jesus