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sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Relacionamento x Pornografia


Trago aqui um assunto muito controverso e analisado pelo poeta/cronista Fabrício Carpinejar há alguns anos, respondendo uma situação levantada por uma leitora, publicado no Caderno Donna  e que abaixo transcrevo:

Namoro há mais de dois anos e ultimamente ele anda vendo bastante pornografia no computador. Isso me incomoda e já conversei, mas parece que ele não se importa. Fico pensando que ele não gosta mais de mim. O que devo fazer: deixar assim e pensar que todo homem faz isso ou terminar? Muito obrigada pela atenção. Beijo. Joelma”

Querida Joelma.

Não vejo nenhum problema no namorado olhar pornografia. Todo homem olha. Eu olho, e o hábito não me torna menos poeta.

A pornografia representa a escola masculina da sedução: a porta de acesso na adolescência para capturar a dinâmica do sexo, a ópera da malandragem e evitar fiascos por desinformação.

É natural na vida do homem como editorial de moda em revistas femininas. Faz parte da nossa solidão e da nossa curiosidade.

Você vem tratando o assunto como um crime, um atentado violento ao pudor. Não há sentido para tamanha seriedade e culpa.

Diante do filme pornô, quem diz que ele não imagina que lhe satisfaz na tela? Sim, absolutamente, seu namorado deve projetar vocês nas performances dos protagonistas. Nem é uma infidelidade ou ou vontade de se relacionar com uma atriz específica – é uma transposição do que ele vive mais corriqueiramente.

O material pornô é um facilitador da intimidade, não é para ser levado ao pé da letra. Sua censura acabará atrapalhando a confidência e a liberdade de expressão do namorado, que não deixará de ver ou consultar os sites, mas passará a fazer escondido e torcerá para ficar menos tempo ao seu lado.

O tabu da pornografia é o mesmo da masturbação no casamento. Persiste a mentalidade de que numa relação fixa as pessoas não podem se masturbar, que é falta de interesse ou isolamento. Pois é o contrário; quanto melhor o sexo, maior o desejo de se masturbar. Masturbação não é uma suplência do sexo. Ambas as opções coexistem em casais saudáveis. Vamos desfazer, portanto, mal-entendidos sobre o tema.

Não significa que você não sacia os gostos e as fantasias dele.

                        Não significa que ele está entediado e que procura diversificar a oferta.

Não significa que ele está carente, disposto a qualquer coisa.

Não significa que ele é um criminoso sexual em potencial.

Não significa que ele contrata serviços de acompanhante.

Não significa que ele será menos romântico na rotina a dois.

Não significa que irá exigir poses e acrobacias comprometedoras.

Não significa que ele está interessado em outras ou que está a um passo de trair.

Você está temerosa à toa. Pornografia não é uma concorrente, mas uma auxiliar do desejo.”

Publicado no Jornal Zero Hora
de 06 de janeiro de 2013.



terça-feira, 21 de março de 2023

Reminiscências (*) 30

 AO NOVEL JUIZ

(Ao amigo Dr. Cláudio A. da S. Nicotti)



DURA LEX SED LEX”. Assim diz um antigo provérbio.


Mas, meu caro magistrado,

use, também, a lei do coração.

Nas lides entre Capital e Trabalho

veja sempre, unicamente, quem tem razão.


Entre o Fato e o Direito

veja quem tem direito de fato...


Das aparências enganosas

fuja sempre para a luz.


Das partes em litígio ou questão

não busque jamais louvores.


Não sirva nunca a dois senhores,

mas somente ao Supremo Juiz.


Tenha sempre a Verdade como fanal

e creia no bem, e serás feliz.


NELSON DA L. FACHINELLI

( da JCJ de Criciúma )


Salve dia 18 de dezembro de 1970.



(*) Segundo Platão, "lembrança do que a alma contemplou em uma vida anterior, quando, ao lado dos deuses, tinha a visão direta das ideias”.

domingo, 25 de setembro de 2022

Reminiscências (*) 29

AMOR NÃO TEM IDADE

Floresce assim de repente

Evanesce igualmente

Deixando-nos saudade


AMOR NÃO TEM IDADE

Rejuvenesce-nos anos a fio

O que nos leva a elaborar planos

Que cremos serem verdade


AMOR NÃO TEM IDADE

Enche-nos de esperanças

Transforma-nos em crianças

Inocentes sem maldade


AMOR NÃO TEM IDADE

Carece de sinceridade,

reciprocidade e de lealdade

Isento de qualquer vaidade


AMOR NÃO TEM


(*) Segundo Platão, "lembrança do que a alma contemplou em uma vida anterior, quando, ao lado dos deuses, tinha a visão direta das ideias”

domingo, 28 de agosto de 2022

O MAIS INTERNACIONAL DOS TIMES NACIONAIS

 SEMIFINAL CAMPEONATO BRASILEIRO 1975

FLUMINENSE 0 x 2 INTERNACIONAL

Texto maravilhoso escrito por um torcedor do Fluminense, sobre um partidaço ocorrido no Estádio do Maracanã em 7 de dezembro de 1975, vencida pelo Inter e que marcou a semifinal do Campeonato Brasileiro daquele ano.

O MAIS INTERNACIONAL DOS TIMES NACIONAIS

A festa estava armada. O domingo já anunciava o fim da primavera e antecipava aceleradamente o verão para o biênio 75/76: este seria vibrante! E nada melhor como receber a chegada do verão, vestido com a faixa de campeão brasileiro novamente. Articulamos, logo após a quarta feira anterior quando aniquilamos um dos postulantes ao título, como seria a derradeira movimentação rumo ao título do então Campeonato Nacional. Seria nosso segundo oficial, visto que meia década antes havíamos conquistado o torneio Roberto Gomes Pedrosa, a Taça de Prata como este era conhecido. Dávamos como certa a participação na grande decisão. Nada nos impediria. Nenhum time nacional poderia interpor-se entre nós e o título de campeão. Nenhum!

Esquecemo-nos que nem só de ‘nacionais’ era composta a tabela de times participantes do campeonato.

“ - Não se esqueça do pó de arroz, Palhaninho”, gritava ao telefone meu amigo Ferreira quando pela manhã nos falamos e planejávamos os apetrechos para a grande partida. Jair, mais conhecido como ‘Ezequiel – O Profeta’, vaticinava que sairíamos roucos do Maracanã de tanto que comemoraríamos os gols que ‘A Máquina’ produziria em escala industrial. ‘Mickey’, apelido do meu querido amigo Zé Carlos Morelli, lembrava-nos que cinco anos antes o gol que nos dera o título de campeão brasileiro havia sido marcado pelo artilheiro de nome igual a sua alcunha, e que fora em razão deste gol que ele recebera o apelido, pois passara a pedir, nas partidas de futebol disputadas no campo do Clube Confiança a partir de então, que cruzassem a bola igual a que fora cruzada na partida do título para que ele pudesse repetir o mergulho que Mickey, o jogador autor do gol do título, dera. E cabeceando magistralmente a bola, colocou-a para dentro da rede adversária dando-nos o desejado título de campeão. Não haveria surpresa: o título nacional seria nosso! Já tinha dono.

Esquecemo-nos que nem só de ‘nacionais’ era composta a tabela de times participantes do campeonato.

Concentramo-nos em minha casa. Perto do estádio e com amplo quintal, exercitávamos o desfraldar das bandeiras em ritmado balé da vitória enquanto sorríamos a ostentação da certeza que denuncia os vencedores, numa clara preparação da marcha que faríamos até o grande templo, o Estádio Mario Filho, o Maracanã de tantas glórias vividas por nós, ainda jovens torcedores mas já acostumados aos entorpecentes efeitos das conquistas. Não nos importava que o adversário, em jogo realizado em seu campo, aplicara-nos uma vitória límpida e insofismável; talvez a única deste porte em todo decorrer do campeonato. Comentei com Evandro, mais sensato que os demais:

“ - O time deles impõe respeito. Tem jogadores de alto nível. E um deles conhecemos bem”. Referia-me ao ponta esquerda Lula. Durante 6/7 temporadas defendera nossas cores, fora nosso mais destemido aliado, autor de jogadas que geraram gols nas finalizações por nossos atacantes bem como gols feitos diretamente, inclusive o que nos deu a conquista de um campeonato. Conhecíamos bem seus dotes, o que me preocupava até porque no comando do ataque outro ex-tricolor, Flávio Minuano. Juntos nos deram muitas, muitas vitórias. Agora estariam contra nós. Coisas da vida, do destino. Aliados aos grandes jogadores que compunham a equipe adversária, goleiro, zagueiro e meio-campistas tínhamos que não imaginar logro fácil e nos preparar para uma partida ‘osso duro de roer’.

Evandro não discordou, olhou para mim sério e torcendo os lábios em clara manifestação de apreensão deixou escapar que só a presença de craques não daria a vitória a nenhum dos dois times. Esta viria com a apresentação de um componente acima das capacidades individuais dos grandes jogadores; acima da experiência dos outros consagrados por conquistas históricas; acima da voluntariedade heroica de outros jogadores. Ela, a vitória, a conquista da vaga para a grande final viria em um item até então pouco utilizado em nossa cultura na prática de esportes coletivos: viria da união entre o virtuosismo, a sagacidade empírica e a determinação. Viria da solidariedade!

Embora concordássemos nos cuidados, confiantes éramos na certeza da conquista. Já havíamos decifrado, acreditávamos, as armadilhas que nos impuseram na derrota sofrida quando lá, nas terras do adversário, estivemos. E a certeza que nenhum time ‘nacional’ tinha competência para nos vencer, sedimentava-se.

Esquecemo-nos que nem só de ‘nacionais’ era composta a tabela de times participantes do campeonato.

O jogo foi dos mais maravilhosos que assisti em toda minha vida. Parecia que estávamos em um grande festival de música com orquestras harmoniosamente ensaiadas; de dança, onde os dançarinos flutuam sobre o palco; de declamação de poesia, com poetas que nos enternecem a alma com seu lirismo, tal qual a qualidade dos atores envolvidos na apresentação daquela belíssima partida de futebol. Aos poucos a confiante torcida, por mim e meus compadres, passou a não ser tão confiante assim, como era no início do jogo. Impossível não ser contagiado pelo futebol daquele adversário que jogava ao som harmonioso ao tocar na bola, com passos de valsa ao trocarem de posições em suas jogadas tão ensaiadas e finalizarem ao gol com a poesia dos sonetos ritmados.

Tentavam nossos jogadores acompanhar a performance que exibiam nossos adversários mas, talvez tão embevecidos, como nós torcedores, assistissem encabulados, tímidos em tentar o que viam com excelência ser praticado pelo adversário. Era apenas a componente que ditaria o curso do vencedor: a solidariedade.

Nossos jogadores eram virtuosos, experientes e determinados; mas de forma isoladas, sem elo.

Dois gols assistimos eu, meus compadres e todos os demais, quase 100 mil pessoas. Hoje, plateia impensável; lá, ainda pouco pelo que o mais internacional de estádios nacionais mundo afora poderia receber. Dois gols em verdadeiros conjuntos de virtuosismo, experiência e determinação; dois gols que nos fizeram lembrar que nenhum time entre todos os ‘nacionais’ poderia nos vencer; dois gols sendo o primeiro de Lula, justo Lula!; dois gols que nos fizeram lembrar que nem só de times ‘nacionais’ era composta a tabela de times participantes do campeonato: havia um time Internacional! 

Havia um Internacional para desfilar na passarela, no campo do mais internacional dos estádios de futebol. E havia um time que não poderia ser outro qualquer a ser o coadjuvante desta apresentação. Um time que protagonizava qualquer outra apresentação, mas que reconhecia a presença do Internacional, adversário naquela tarde de domingo já perto do final da primavera, que trazendo o calor e o brilho do sol de verão mantinha a beleza das flores primaveris.

“ - Palhaninho, por que não estou triste com a derrota?”

“ - Porque não fomos derrotados” disse de forma plácida a meu amigo Ferreira. “As derrotas pertencem aos que, perante os fracos, não os superam. Enfrentamos uma força superior. E o fizemos com legítima propriedade. Enfrentamos uma força Internacional!”

Assistimos no domingo seguinte a consagração deste Internacional. O vencedor do campeonato nacional de futebol possuía a internacionalidade de sê-lo”.

Álvaro Palhano de Jesus




terça-feira, 2 de agosto de 2022

Sugestões para atravessar Agosto


“PARA ATRAVESSAR AGOSTO é preciso paciência, fé e não fé.

Paciência para cruzar os dias sem  se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau;

Fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro e

Não-fé para não ligar a mínima, às negras lendas deste mês de cachorro louco.

Também é necessário reaprender a dormir. 

Dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. 

São incontroláveis os sonhos de agosto:

se bons, deixam a vontade impossível de morar neles; 
se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. (...)”

Caio Fernando Abreu


quinta-feira, 7 de julho de 2022

AZAR x SORTE x INCOMPETÊNCIA



No vídeo abaixo, selecionamos algumas jogadas inusitadas, fantásticas, enfim, diríamos até bizarras, de futebol, que julgaríamos impossíveis de acontecer.

Mas aconteceram!!! E se não víssemos, não acreditaríamos...



 

segunda-feira, 6 de junho de 2022

BARBOSA - Condenação Eterna

Estamos novamente em ano de Copa do Mundo e, por isso, trago aqui um curta gaúcho dirigido por Jorge Furtado onde ele volta no tempo para retratar uma das maiores injustiças já cometidas a um jogador de futebol, sumariamente condenado pela perda de um título. O grande goleiro da Seleção Brasileira: BARBOSA.

"Que eu tenha como vivente, acho que nunca houve um silêncio maior que aquele que eu vi. Com 200 e tantas mil pessoas  em silêncio. Acho que nem se morresse um presidente não teria tido aquilo. Não digo que o Brasil morreu, mas que passou uma tarde fúnebre, passou! Disso não tenha dúvida. Eu senti na própria carne. Essa é uma realidade: o Brasil silenciou. Silenciou mesmo! Só acordou no dia seguinte com o pesadelo (na derrota da Copa do Mundo de 1950).” Barbosa

Perguntado se acha intimamente que cumpriu 30 anos de pena?

Eu acho que sim! 30, não, porque até hoje eles falam. Então foi mais de 30 (anos). São 44 anos! Eu tenho direito de, pelo menos, dormir tranquilo”Barbosa.


sexta-feira, 6 de maio de 2022

Ejaculou...??? Justiça decide: esperma é propriedade da mulher!

Usar esperma para engravidar sem autorização do homem não caracteriza roubo, porque “uma vez ejaculado, o esperma se torna propriedade da mulher”.


O entendimento é de uma corte de apelação em Chicago, nos Estados Unidos, que devolveu uma ação por danos morais à primeira instância para análise do mérito.


Nela, o médico Richard Phillips acusa a colega Sharon Irons de “traição calculada, pessoal e profunda” ao final do relacionamento que mantiveram durante seis anos. Sharon teria guardado o sêmen de Richard depois de fazerem sexo oral, e usado o esperma para engravidar.


Richard Phillips alega ainda que só descobriu a existência da criança quando Sharon ingressou com ação exigindo pensão alimentícia. Depois que testes de DNA confirmaram a paternidade, o médico processou Sharon por danos morais, roubo e fraude.


Os juízes da corte de apelação descartaram as pretensões quanto à fraude e roubo afirmando que “a mulher não roubou o esperma”. O colegiado levou em consideração o depoimento da médica. Ela afirmou que quando Richard Phillips ejaculou, ele entregou seu esperma, deu “de presente”.


Para  o tribunal, “houve uma transferência absoluta e irrevogável de título de propriedade já que não houve acordo para que o esperma fosse devolvido”.


Agora é oficial:

Os homens não mandam em PORRA nenhuma!!!

domingo, 24 de abril de 2022

OLÍVIO x FORD

Caso Ford/RS?.... Entenda o caso, para não ser demagogo nos comentários contra o Bigodudo!!!! Este é Gaúcho de Verdade...

A FORD não ficou no sul, porque queria dar o Golpe do vigário no Olívio Dutra, ex-governador do Estado e ex-prefeito da Capital, carregou por uma década e meia o fardo da acusação de ser o homem que teria atrasado o progresso do Rio Grande do Sul quando estava à frente do Palácio Piratini. “Mandou a Ford embora”, diziam seus adversários políticos, ao mencionarem o episódio da tortuosa negociação entre a gigante automotiva e o governo empossado em 1999.

Hoje, pressionada pela possibilidade de uma decisão contrária a seus interesses, a empresa aceitou fazer um acordo judicial para devolver R$ 216 milhões aos cofres gaúchos, definindo um desfecho notável para uma das histórias políticas mais polêmicas dos últimos anos no Rio Grande do Sul, sobre a qual o próprio ex-governador faz revelações em entrevista ao Correio do Povo.                                   (Renato Sousa)


CP: Como foi quando o senhor chegou no Piratini e deparou com esse contrato como estava posto para o Estado?

Olívio Dutra: Bueno, temos que lembrar que nós fizemos uma campanha na eleição, com uma afirmação constante de um projeto que queria recuperar o Estado para suas funções básicas. Não um Estado mínimo, nem um Estado máximo. Mas um Estado não fatiado pelos interesses privados. Um Estado sob o controle público. Esse foi o mote da nossa campanha. Nós sabíamos que o dinheiro público é escasso. E sendo escasso ele não pode ir para quem menos precisa.


CP: O que era problema na negociação entre a Ford e o Estado?

Olívio Dutra: Havia dois grandes problemas. O primeiro era a renegociação da dívida que retirou do Estado fontes importantes para geração do desenvolvimento. Ora, então, se não tinha recursos para essas coisas básicas, fundamentais, como é que nós iríamos passar para a indústria automotiva o que havia sido tratado com o governo anterior. Por isso, nós tratamos de chamar as empresas que se instalavam no estado, General Motors e Ford, para conversar. Passamos, no primeiro mês, recursos enormes. No segundo, não tinha de onde tirar. Se o Estado não tem esses recursos que foram acordados pelo governo anterior, vamos tratar outros termos, porque nos interessa, sim, a presença da indústria, mas não naqueles termos.


CP: Quais termos?

Olívio Dutra: Eram 29 ou 30 cláusulas no contrato. Uma delas era a obrigação da Ford com o Estado. As demais todas eram obrigações nossas com a Ford. O Estado tinha que fazer praticamente tudo, no entorno, repassando recursos que não teria. Não dava para dar cumprimento àquilo que o Estado não podia suportar. A GM aceitou conversar.


CP: A Ford, não?

Olívio Dutra: Havia algo estranho. A Ford mantinha tratativas com as pessoas do governo anterior. Tinha apoios na Assembleia Legislativa, de representantes que faziam nossa oposição. Da bancada gaúcha na Câmara federal. Da União. Era um ambiente político muito adverso à execução do projeto que nos levou a ganhar a eleição. Mesmo assim, fomos dizendo: temos que renegociar. Nós mantivemos firmeza, mas não se propuseram a mexer em nada, enquanto que a General Motors possibilitou uma redução de mais de R$ 100 milhões para sua permanência. A Ford tinha um certo desprezo pelo governo eleito.


CP:: Na sua visão, ocorreu um choque entre as concepções de projetos?

Olívio Dutra: Evidentemente, tem diferença entre concepções. Nós tínhamos uma concepção de desenvolvimento que não é com base num único ramo de produção. Era pela diversificação da base produtiva, valorização das vocações locais e regionais, das micro, pequenas e médias empresas, distribuídas no espaço econômico, geográfico, social e político do Rio Grande.


CP: Essa colisão de concepções ocasionou prejuízos para o Estado?

Olívio Dutra: O Rio Grande cresceu acima da média nacional nos quatro anos de governo da Frente Popular. Isso está nos registros da Fundação de Economia e Estatística.


CP: Quando a instalação da Ford foi anunciada pelo governo da Bahia, como foi a reação das pessoas no seu governo? O senhor temeu que fosse ainda mais criticado?

Olívio Dutra: Nunca pensei nisso. Ora, convenhamos. Na verdade, era uma disputa entre o então governador aqui, outros governadores do mesmo partido e do próprio presidente da República para ver quem dava mais favores para esses grupos. Existia um acordo para a instalação dessas empresas na região do Mercosul, envolvendo Brasil e Argentina. Fernando Henrique Cardoso rompeu unilateralmente esse acordo e estendeu esse território que era delimitado, levando para o Nordeste, com mais vantagens para a Ford do que ela já tinha absurdamente conseguido com o governo anterior no Rio Grande do Sul. Ir para a Bahia? Tudo bem. Que bom. É o desenvolvimento do Brasil, não é?


CP: Em nenhum momento o senhor considerou isso como uma perda?

Olívio Dutra: Não foi o Rio Grande que perdeu a Ford. Foi a Ford que perdeu o Rio Grande. O Estado se desenvolveu acima da média nacional sem a Ford. A General Motors ficou, com a redução de mais de R$ 100 milhões para sua permanência. Os executivos da GM, que souberam negociar, foram promovidos pelos seus superiores, enquanto que a direção internacional da Ford destituiu todos os dirigentes que não tiveram a capacidade de negociar. Essa história não circulou nunca por aqui. Aqueles caras que representavam a Ford aqui demonstraram total incapacidade, foram desrespeitosos com o governo eleito, incapazes de vislumbrar algo diferente, encontrar alternativas.


CP: Mas e os empregos?

Olívio Dutra: Diante da renúncia fiscal e os investimentos públicos que exigiam, criariam uma merreca de empregos. É emprego direto, indireto, interplanetário…


CP: Como funcionava este tipo de isenção tributária naquela negociação?

Olívio Dutra: Tem uma pressão para que a grande empresa se instale aqui. Tem que renunciar de receber impostos por tanto tempo. Termina aquele tempo, elas vêm para renovar a renúncia.


CP: O senhor ainda acredita ter tomado a decisão correta?

Olívio Dutra: Penso que a nossa decisão de ter seguido aquela postura, com firmeza e com transparência, colocou na prática uma visão republicana. O Estado não é propriedade do governante, dos seus amigos, partidários, e muito menos dos grupos mais influentes e mais poderosos econômica e financeiramente. O Estado tem que ter o controle público efetivo. Daí a ideia do Orçamento Participativo, que avançou bastante, mas não o suficiente. O Estado tem que ser capaz de atender às demandas fundamentais para a qualificação da vida da maioria da população. Tem gente que tem dinheiro e qualidade de vida suficiente até para desprezar o Estado, mas a maioria do povo precisa de um Estado funcionando transparentemente para atender o interesse público, coletivo, não o interesse individual. O Estado está sempre em disputa, nas dimensões federal, estadual e municipal, e essa disputa tem que ser resolvida democraticamente. Não é estreitando o espaço de participação da cidadania que nós vamos ampliar o controle público do Estado. Cada cidadão e cidadã tem que ser sujeito e não objeto da política. Então, o Estado brasileiro está longe ainda de andar sob esse controle efetivamente público. É mais uma cidadela dos interesses dos mais poderosos, dos mais influentes, que se encastelam por dentro dos mecanismos do Estado, nas três dimensões


CP: O senhor sente que modificou essa lógica quando atuou na questão da Ford?

Olívio Dutra: Nós começamos, evidentemente, a semear essa mudança. Porque mostramos que o Estado não dependia dessa empresa ou de qualquer outra grande empresa para progredir. Mostramos que o Estado se desenvolveu de forma mais parelha, desconcentrada e descentralizada. Gerou mais empregos e também aumentou a renda dos trabalhadores. Na administração pública, diminuímos a distância entre os mais altos salários e os mais modestos, reajustando os mais altos pela inflação e os mais baixos um pouco acima. Porém, longe ainda, digamos, de uma estrutura justa.


CP: O senhor sempre acompanhou o processo judicial ou apenas se informava quando havia alguma notícia divulgada na imprensa?

Olívio Dutra: Claro que acompanhava, permanentemente, mesmo quando saímos do governo. Sempre estivemos em cima. Eles foram recorrendo até a última instância. Aliás, tinham que pagar mais de R$ 1 bilhão, na verdade. Mas o atual governo está passando por necessidades, fez esse acordo e, de novo, a multinacional ganhou, mesmo perdendo.


CP: Como o senhor se sentiu ao saber da decisão da Justiça?

Olívio Dutra: Primeiro eu me lembrei do companheiro Zeca Moraes, que foi nosso secretário de Desenvolvimento. Ele faleceu antes do desfecho que nós entendíamos que seria o desfecho. Ele merecia estar presente nessa dimensão da vida. Evidente que vai ficar ainda um bom tempo repercutindo. É uma visão de mundo e nossa visão de mundo não precisa ser necessariamente aceita por outros. Vai ter sempre quem diga: o Olívio mandou a Ford embora, por impertinência, mas…


CP: A Justiça está feita ou ainda há coisas por serem contadas nessa história da Ford com o Estado?

Olívio Dutra: Eu acho que sempre tem o que contar. Tem papéis de figuras, de instituições, clima político, conjunturas. Tem um capítulo interessante aí, de embate político e visão de desenvolvimento.


CP: O senhor já pensou em escrever essa história para deixar registrada, em um livro, por exemplo?

Olívio Dutra: Eu até acho que tenho esse dever, mas eu não me imponho isso. Mas quero que haja respeito à postura republicana e transparente de um governo democraticamente eleito pelo povo gaúcho. Decisão essa que não fez mal ao Rio Grande. Pelo contrário, possibilitou o desenvolvimento desconcentrado, descentralizado, mais parelho.

* Por Luiz Sérgio Dibe



domingo, 27 de março de 2022

Bolsolão do MEC - Edu Krieger





Outra obra prima de Edu Krieger.
Bolsolão do MEC ("Upa!")

O pastorzinho no Alvorada
O pastorzinho olha lá
Vixe! Gravaram o ministro
O pastorzinho começou a mandar
Começou a mandar
Começou a mandar
E já começa a vazar
Que esse ministro é uma farsa
Com MEC pode explicar?
É o Bolsolão dos "comparsa"
Pois nesse governo só dá
Roubalheira,
posso enxergar
Rachadinha,
pra parcelar
Tem propina
pra quem rezar
Cedo ou tarde eles vão se ferrar
Fora Jair ih, ih, ih, ih, vai rodar
Fora Jair ih, ih, ih, ih, vai rodar
Fora Jair ih... ih, ih, vai rodar
Ih, vai rodar