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terça-feira, 2 de agosto de 2022

Sugestões para atravessar Agosto


“PARA ATRAVESSAR AGOSTO é preciso paciência, fé e não fé.

Paciência para cruzar os dias sem  se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau;

Fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro e

Não-fé para não ligar a mínima, às negras lendas deste mês de cachorro louco.

Também é necessário reaprender a dormir. 

Dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. 

São incontroláveis os sonhos de agosto:

se bons, deixam a vontade impossível de morar neles; 
se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. (...)”

Caio Fernando Abreu


segunda-feira, 6 de junho de 2022

BARBOSA - Condenação Eterna

Estamos novamente em ano de Copa do Mundo e, por isso, trago aqui um curta gaúcho dirigido por Jorge Furtado onde ele volta no tempo para retratar uma das maiores injustiças já cometidas a um jogador de futebol, sumariamente condenado pela perda de um título. O grande goleiro da Seleção Brasileira: BARBOSA.

"Que eu tenha como vivente, acho que nunca houve um silêncio maior que aquele que eu vi. Com 200 e tantas mil pessoas  em silêncio. Acho que nem se morresse um presidente não teria tido aquilo. Não digo que o Brasil morreu, mas que passou uma tarde fúnebre, passou! Disso não tenha dúvida. Eu senti na própria carne. Essa é uma realidade: o Brasil silenciou. Silenciou mesmo! Só acordou no dia seguinte com o pesadelo (na derrota da Copa do Mundo de 1950).” – Barbosa

Perguntado se acha intimamente que cumpriu 30 anos de pena?

“Eu acho que sim! 30, não, porque até hoje eles falam. Então foi mais de 30 (anos). São 44 anos! Eu tenho direito de, pelo menos, dormir tranquilo” – Barbosa.


sábado, 2 de abril de 2022

Edison - O Mago da Luz

 

Thomas Alva Edison – O Mago da Luz (Edison, The Man – 1940)

O inventor Thomas Edison participa de um evento que comemora os cinquenta anos da luz elétrica. Aos 82 anos, ele relembra sua carreira desde o dia em que chegou a Nova York, sem dinheiro, até seu triunfo como o criador da lâmpada incandescente.

Assim como toda cinebiografia norte-americana da época, esta não segue com extrema fidelidade a vida do homenageado, mas as liberdades tomadas aprimoram o resultado, mérito do competente diretor Clarence Brown, nesta refinada produção da MGM. O foco é direcionado para a perseverança de Thomas Edison (excelente Spencer Tracy) em seu sonho, colocando-o em confronto direto com Taggart (Gene Lockhart), um banqueiro que vê na possibilidade de iluminação elétrica, uma desvalorização de seus investimentos em gás. Como todo incompetente, o homem busca complicar ainda mais a já bastante complicada vida de Edison. Ele só não contava com a incrível persistência dele.

É curioso que a importante relação do inventor com o próprio cinema em sua gênese não recebe atenção, opção que vai contra a usual autocelebração da indústria. A sua obra-irmã, “Young Tom Edison”, lançado pelo estúdio no mesmo ano, protagonizado por Mickey Rooney, não sobreviveu tão bem ao teste do tempo. Realizado apenas nove anos após o falecimento de Edison, o filme reflete também a aproximação da Segunda Guerra Mundial (patriotismo e a preocupação com a destruição do homem pelo próprio homem). Algumas cenas, ainda que resolvidas de forma puramente clichê, funcionam maravilhosamente e emocionam, como quando Edison avisa seus colegas trabalhadores que não terá mais como os pagar pelo serviço.

Um filme essencial que deveria ser visto por todos os adolescentes, uma pérola que permanece injustamente empoeirada nas estantes de um povo que não valoriza a memória cultural. Se perguntar para a garotada hoje em dia, a maioria nem sabe quem foi Thomas Edison. Triste mundo moderno.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Van Gogh

Hoje eu li um “texto” que afirmava que Van Gogh comia tinta amarela, porque considerava uma cor alegre, e achava que assim fazendo, se sentiria feliz.

No final ainda perguntava se “você já comeu sua tinta amarela hoje?”


Que merda!!!


Isso não é uma história bonita ou um conto clichê motivacional. É no máximo uma metáfora triste sobre a ignorância e hipocrisia do ser humano. Que só prova o quanto negligenciamos, diminuímos e impomos pré conceitos sobre o que o outro sente ou deixa de sentir. Não entendeu???


Acontece que ele sabia que as tintas eram tóxicas.

Segundo anotações médicas do dr. Peyron, médico de Vincent, ele queria se envenenar ingerindo tinta e bebendo terebintina (solvente), fato que fez com que ele ficasse afastado das pinturas por algum tempo. Ele não queria se sentir feliz. Muito provavelmente, queria morrer.


Quase 128 anos depois da sua morte, Van Gogh é um dos artistas mais importantes e influentes da história, mas o principal rótulo que ele recebe das pessoas não é esse, mas sim, o de "louco".


Afinal, não importa quem tu és ou o que tu faz. Sempre vão te etiquetar pelos teus transtornos: depressivo, ansioso, esquizofrênico, “louco", não importa o que ou porque, não importa os meses com nomes, as campanhas de conscientização, os pedidos de socorro.


É tudo mentira!!!


A sociedade não sente empatia por ti. Não se importa se tu engolir tinta tóxica amarela ou se jogar de cima de um prédio. Vão dizer que é falta de fé e de vontade. Vão romantizar o que não pode ser romantizado. Assim é mais fácil, mais fácil que "entender".


Sinto muito, Vincent. Depois de tanto tempo, ainda não te compreenderam. As coisas não mudaram tanto assim.


Obs.:

Para alguns a conclusão do texto pode ter ficado “forte” demais.

O fato é que quando decidi escrevê-lo, queria mostrar a realidade que nós, que sofremos de algum transtorno de saúde mental, convivemos todos os dias.

A minha intenção sempre foi a conscientização sobre a romantização e a estigmatização desses problemas.

Então sim, talvez as palavras sejam um pouco duras, mas às vezes precisamos fazer o outro sentir um pouco do que sentimos, para que ele através da empatia, consiga compreender pelo menos o suficiente para respeitar.

Algumas pessoas precisam abrir os olhos.

E queria falar aqui, que embora ainda exista sim, na nossa sociedade, muito preconceito e ignorância sobre esse assunto, também existem MUITAS pessoas incríveis e dispostas a ajudar.

VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHO!!!

O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo (por telefone, email e chat) 24 horas todos os dias.

O atendimento por telefone é feito pelo número 188 e você pode encontrar mais informações no site: https://www.cvv.org.br

Também vale lembrar que as doenças de saúde mental, assim como qualquer outra doença, precisam de acompanhamento de um profissional.

Tenho certeza que vocês vão conseguir superar quaisquer problemas que estejam vivendo.

Vocês são maiores que isso.

Cuidem-se e valorizem-se.

Vocês são importantes.


Abraços 💛

Guilherme Wermann


sexta-feira, 26 de novembro de 2021

A Máquina de Anticítera

Uma descoberta chocante de um naufrágio de 2000 anos: o mecanismo de Anticítera.

O Mecanismo de Anticítera é uma antiga calculadora astronômica de dois mil anos que consiste em trinta engrenagens de bronze precisas e cortadas à mão. A ferramenta avançada foi feita pelos antigos gregos, e os cientistas levaram anos para desvendar o mistério por trás desse dispositivo, que Mike Edmunds, da Universidade de Cardiff, descreveu como mais caro “do que a Mona Lisa”.

A máquina foi descoberta em 1900 por mergulhadores nadando através de um antigo naufrágio perto de Anticítera, uma pequena ilha grega. Usando dados de radiocarbono, os cientistas conseguiram datar este relógio em 65 a.C. Quando se trata de seu valor total, sua natureza histórica o torna quase inestimável. Quem é que pode adivinhar como as civilizações antigas liam os céus?


Cientistas acabam de concluir que um instrumento utilizado para cálculos astronômicos, construído por volta do século 2 a.C., era tão complexo que pode ser considerado precursor dos atuais computadores.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

ANTIGO PROVÉRBIO CHINÊS

DIZ UM ANTIGO PROVÉRBIO CHINÊS QUE HÁ APENAS DUAS COISAS COM QUE TU DEVES TE PREOCUPAR:


- Se tu estás BEM ou se estás DOENTE;

Se tu estás bem, não há nada com que te preocupar.

Se tu estás doente, há duas coisas com que te preocupar:


- Se tu vais te CURAR ou se vais MORRER;

Se tu vais te curar, não há nada com que te preocupar.

Se tu vais morrer, há duas coisas com que te preocupar:


- Se tu vais para o CÉU ou para o INFERNO;

Se fores para o céu, não há nada com que te preocupar;

Agora, se fores para o inferno, estarás tão ocupado em cumprimentar velhos amigos que nem terás tempo de te preocupar.


ENTÃO, PARA QUE TE PREOCUPAR???

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

O AINDA DESCONHECIDO DOSTOIÉVSKI E SEUS 200 ANOS DE NASCIMENTO


Professor João Armando Nicotti (*) analisa alguns contos, não tão populares do escritor russo, cujo bicentenário é lembrado neste mês.

    Mesmo o leitor dostoievskiano corre o risco de ignorar o “ainda desconhecido” Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski aqui apresentado. Claro que, como qualquer especulação, há erro possível, mas listo alguns títulos que, em regra, podem ser desconhecidos ou deixados num segundo plano. Há mais outros tantos, considerando contos iniciais do final do decênio de 1840, como “Romance em nove cartas”, “Polzunkov”, “O ladrão honesto”, “Um coração fraco”, “A mulher de outro e o marido debaixo da cama”, “Uma árvore de natal e um casamento”, “Uma história desagradável” (1882), o folhetim “Sonhos de Petersburgo em verso e prosa” (1871), etc.


    Dostoiévski nasce em Moscou e morre em São Petersburgo segundo o calendário juliano, ou seja, 30 de outubro de 1821 e morre em 28 de janeiro de 1881. Valem como efemérides os anos de 1821 e 1881 para este evento de 2021; 200 anos de seu nascimento (e, apenas enquanto notícia, - 140 de sua morte.


    Quem já não passou pelos títulos “Escritos da casa morta”, “Memórias do subsolo”, “Crime e castigo”, “Um jogador”, “O eterno marido”, “Os demônios” e “Os irmãos Karamazov” e deixou de se emocionar ou protestar com a gama de possibilidades de interpretações psicossociais de um mundo russo do século XIX que, ultrapassando seus próprios limites, atestam a universalidade de comportamento metafísico, moral, religioso, socioeconômico e psicológico?


    Mas vamos ao Dostoiévski possivelmente “ainda desconhecido”.


    “O senhor Prokhartchin” (1846), da produção da primeira fase do autor. Com um ritmo narrativo trancado e com ideias desrticuladas, Siemion Prokhartchin descola-se da realidade como sujeito que se deixa ficar no local que habita atrás de um biombo. Um baú enigmático embaixo de sua cama (que intriga a senhoria Ustínia e os demais inquilinos) e o estranhamento de sua conduta levam seus pares a crerem num infortúnio de vida somado à extravagância e atitudes e aproximação com sujeitos suspeitos. Ironia, conflito e isolamento fortalecem a avareza e o egoísmo de Prokhartchin denunciados pela pretensa pobreza. O social e o psicológico estimulam o medo de um homem que se aniquila pela fantasmagoria da possível extinção de seu local de trabalho – uma repartição pública na Rússia. Não atendendo às expectativas de sociabilidade, Prokhartchin deixa o suspense de sua vida até o final do enredo, o qual se revela ambíguo.


    Em “Niétotchka Niezvânova”, a partir da expressão “Niet (Hel) – Não, em russo, certamente Dostoiévski quis designar pessoas abandonadas, referência biográfica à Niétotchka Niernânova, que se vê de casa em casa depois das mortes da mãe e do padrasto. Assim a própria Niétotchka narra sua vida pregressa até seus 15 anos. Provavelmente, Ana é mulher madura quando escreve suas confissões, tamanho o grau de discernimento ao vivido. A têmpera psicológica de Niétotchka passa, até evoluir positivamente por momentos de “crises nervosas” e “devaneios” sobre sua infância, sua pobreza, a figura enigmática do padrasto violinista, a morte da mãe, a fuga do padrasto, a adoção em casa do príncipe K., o luxo, sua educação, os negaceios com Kátia (ódio e paixão até a separação) e a sua nova estadia em casa de Aleksandra e Piotr. O romance é inacabado e parte de sua publicação ocorre no princípio de 1849, com o autor já preso na Fortaleza de Pedro e Paulo.


    O leitor de Dostoiévski sabe o quanto o autor desenvolve os seus escritos de maturidade, a presença das crianças e o quanto estas sofrem no mundo dos adultos. “Um pequeno herói” é de 1849, com publicação em 1857. O ponto de vista é o de um menino de 11 anos que, no tempo presente, torna-se o adulto de seu próprio mundo vivido no passado. Foi escrito quando o autor estava preso na Fortaleza Pedro e Paulo, sendo o modo que Dostoiévski encontra para suportar a adversidade do momento. Deste modo, há um pequeno grupo que apenas se diverte e que está distante dos problemas sociais da Rússia por investir na própria futilidade, não havendo espaço para mujiques esfomeados, mulheres enlouquecidas pela miséria, epilépticos e, tampouco, estudantes a perambular por ruas sombrias e inumanas para eliminar piolhos sociais. Neste contexto, aparece um garoto que desfruta da apoteose do prazer social a descobrir seu primeiro amor pela casada Madame M*. No final do enredo, vê-se a possibilidade de regeneração do mundo dos homens – ponto importante em futuras obras de Dostoiévski.


    Em “O sonho do titio” (1859), a discussão proposta por Dostoiévski é a tediosa província de Mordássov e seus moradores. Dostoiévski parte de um sonho que não é sonho, pois é colocado na cabeça do Titio (o príncipe K. ou Gavrila) algo como sonho para substituir a realidade tal como se apresenta (o pedido de casamento do príncipe à Zinaída). O Titio não é tio legítimo do sobrinho impostor Pável. A estrutura familiar apoiada na figura do Titio não é o centro da discussão, mas sim, na de dois personagens: Mária e Pável, deixando a figura do próprio Titio em segundo plano, embora destaque-se a sua comicidade.


    Diferente é o título “A aldeia de Stepántchikov e seus habitantes" (1859), pois, nesse texto, a ideia central é, de fato, a família e não a aldeia sugerida. Cada habitante surge de dentro da casa de Iegor, como saindo sem muita pretensão, meio sem querer, até desvendar-se por meio das falas e dos comportamentos estranhos associados a conchavos e à luta por espaços na aldeia – casa de Iegor. O parasitismo, a hipocrisia e o humor formam a trama. O que o leitor espera basicamente não ocorre, pois o social da aldeia é diminuído e o emblemático conflito fica entre quatro paredes. O movimento de atração é a casa e Iegor Rostániev e o movimento é de “fora para dentro”, enquanto que, em “O sonho de Titio”, pode-se imaginar como de “dentro para fora”. Figura impagável de influência e comicidade é a de Fomá Fomitch, agregado de Iegor, personagem admirado pelo escritor argentino Julio Cortázar (1914 – 1984).


    Em “Notas de inverno sobre impressões de verão” (1862/1863), o narrador é um doente, sofre do fígado, sabe que mentirá e vê no espelho sua língua amarela e maligna. Notas está no caderno de notas que o narrador consulta para recuperar sua viagem ao ocidente, durante dois meses e meio, ao visitar Berlim, Dressen, Wiesbaden, Baden-Baden, Colônia, Paris, Londres, Lucerna, Genebra, Gênova, Florença, Milão, Veneza e Viena. Sobre a Europa, tece comentários sobre progresso, socialismo, mulheres, casamento, miséria, mentiras, etc. O que perpassa Notas é o pensamento que o russo não abre mão de sua base moral, por ter noção que esta pode ser delinquida, enquanto que o europeu toma o mal pelo bem. Destaque para “Ensaio sobre o burguês” e suas reflexões sobre o lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” e o temor do burguês resumir-se ao fato de ter alcançado tudo e perder tudo, pois quem mais teme é quem mais prospera. Segundo o narrador, somente na Rússia existe esta relação de consciência entre indivíduo e comunidade: só os russos são capazes de fraternidade.


    O enredo de “O crocodilo” (1864) é construído com presteza, pois Dostoiévski acrescenta, ao fantástico, o estranhamento do capitalismo que divide opiniões, causa desconforto e dúvida. O capitalismo é personagem e a metáfora em Carlinhos, o crocodilo, implacável. O que o rege é o “princípio econômico em primeiro lugar” e a “atração de capitais estrangeiros”. Deste modo, o crocodilo valoriza Ivan Matviéitch ao engoli-lo e este sente destacado, pois, paradoxalmente, dentro do animal, há o vazio. Incompleto e desumano, o crocodilo/capitalista é defendido por jornais, ressonância do que ocorre na Rússia pós abolição dos servos em 1861. A arrogância de Ivan é proporcional ao destaque que o crocodilo lhe permite, ou seja, o de pertencer ao sistema capitalista.


    Nessa linha do fantástico, há o conto “Bobók” (1873). Estruturado com o narrador Ivan Ivanovitch e sua relação rápida com retratista, editores, parente morto e grupo de mortos que se fazem escutar quando ele, Ivan, distraído, dormia em cima de sepultura. Em nível dos mortos, há diferentes classes sociais da Rússia do século XIX, predominando, entretanto, a abastada, pois entre os mortos há apenas um verdadeiro. Desta conversa, Ivan serve-se como crítica à classe rica deteriorada moralmente, em situação similar quando do odor do morto; no conto, o fedor é a moral construída em vida. O resto de vida que há nos mortos é apenas a consciência.


    A novela “O sonho de um homem ridículo” (1877) apresenta solilóquio em torno dos pensamentos imaginários do protagonista-narrador-suicida (pois se mata em sonho). Sua relação com outros personagens é de apatia e indiferença até, ao menos à descrição do sonho, quando o narrador vive com homens felizes numa espécie de Idade de Ouro. No fim do relato, retoma-se a descrição e a reflexão fora do sonho, mas com a convicção deste sonho para a construção digna da humanidade. O protagonista deixa a indiferença para crer num estado de transformação dos homens. Sua convicção, após ter visto a Verdade, é a de pregar pelo mundo, apesar da descrença dos homens e de suas relações apoiadas pela razão. O tom profético e religioso torna possível de o homem ter uma vida harmônica e repleta de amor e consideração pelo outro, removendo o egoísmo, o ciúme, a falta de solidariedade e a patifaria e canalhice do conhecimento da racionalidade.


    No ano de comemorações e, decerto, de atualização da obra de Dostoiévski, ainda há muita leitura do conjunto da obra do autor russo a ser preenchida. O ideal, entretanto, é discuti-lo sempre que nossa ansiedade por leituras e traduções novas e inteligentes, como a recente “Crônicas de Petersburgo” (tradução de Fátima Bianchi) estejam capazes de oportunizar a sagaz cidade do texto do autor de “Os demônios” e se deparar com o raciocínio de Kapiton Maksimovitch: “...de um modo geral observei que de dia se perde um pouco a fé”.


Publicado no Caderno de Sábado

do Jornal Correio do Povo

em 6 de novembro de 2021


(*) Professor de Literatura Brasileira. 
Curso de Extensão em Língua Russa pela UFRGS.




quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Correio do Povo - 110 anos 01

 


No início, eu não vi nenhum negro no futebol, porque eles estavam proibidos de jogar. E também não vi mulheres nos esportes, porque elas não podiam competir. Mas isso foi só no início.


Em seguida, eu vi um operário alemão fundar o time mais antigo do país, o Sport Clube Rio Grande, e fazer ele mesmo as preleções para a equipe. Em alemão.


Eu vi o Grêmio, de camiseta grená, vencer o Internacional por 10 x 0 no primeiro Gre-Nal. E depois vi o Inter ganhar de 6 x 2 do Grêmio na inauguração do Olímpico.


Nas Olimpíadas de Berlim, eu vi um negro estragar a festa dos arianos e se consagrar o maior atleta daqueles tempos.


Eu vi 200 mil pessoas chorando no Maracanã quando o Uruguai venceu o Brasil de virada. E, quando o rolo compressor do Inter amassou por seis anos o orgulho dos gremistas, eu também vi.


Eu vi o Brasil campeão, bi, tri. Vi gol de cabeça, de bicicleta, de placa, até gol de plano inclinado no Estádio dos Eucaliptos eu vi.


E vi Pelé fazer mil gols.


Vi Cassius Clay virar Muhammad Ali e perder o título de campeão mundial de pesos pesados porque não foi para a guerra.


Vi a taça Jules Rimet ser derretida, um boxeador arrancar a orelha do outro, o brasileiro mais rápido da história terminar uma época inteira em uma curva.


Eu vi o Penta que nenhum outro país levou para casa. E ainda vou ver muito mais.


Eu já vi muito. Mas não vi tudo.




Todas as glórias, as lendas, as derrotas, as vitórias, as alegrias do esporte, o Correio do Povo viu. Abrir o Correio é como abrir uma página da história. Do esporte e do mundo.




Editorial do CP em comemoração aos 110 anos do jornal

Edição de 5 de outubro de 2005.


sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Emerson Fittipaldi x Rio Mampituba

O bom e velho Mampituba impondo respeito até no bom e velho (na época guri) Emerson Fittipaldi... rsrs

O campeão mundial de Fórmula 1 comenta a respeito das aventuras que passou com os seus pais na mais bela praia do Rio Grande do Sul - Torres.

 

sábado, 9 de outubro de 2021

Pequenas Tragédias De Antigamente...


1. Qdo as fichas acabavam no meio da ligação feita do orelhão.
2. Ou o disco riscava bem na melhor música.
3. Tu datilografavas errado a última palavra da página.
4. E não tinha fita corretiva de máquina de escrever pra consertar.
5. A fita do Atari não funcionava nem depois de tu assoprares.
6. O locutor falava as horas ou soltava uma vinheta BEM NO MEIO DA MÚSICA que tu tinhas passado horas esperando pra gravar.
7. E depois o toca-fitas mastigava a fita.
8. O locutor não falava o nome da música qdo ela terminava.
9. E tu ficavas anos sem saber quem cantava ou como chamava aquela música que tu tinhas amado.
10. Teu irmão bebia o líquido das Mini Cocas.
11. E alguém dizia que o filho do amigo do tio do vizinho tinha morrido depois de beber o líquido das Mini Cocas.
12. Alguém fumava dentro do ônibus.
13. Ou do avião.
14. Ou do elevador.
15. Tu tinhas que pagar multa por devolver a fita de vídeo pra locadora sem rebobinar.
16. O Ki-suco vazava da garrafinha da tua lancheira.
17. E molhava as bisnaguinhas com patê.
18. Tu tiravas as letras das músicas em inglês tudo errado.
19. E depois descobria, no folheto da Fisk, que estava tudo errado mesmo.
20. Mas já era tarde, pois tu já tinhas decorado errado (e canta errado até hoje).
21. Tu arranhavas com todo cuidado, mas qdo levantavas o papel via que o bichinho do decalque do Ploc tinha saído sem uma perninha.
22. A televisão resolvia sair do ar no dia do capítulo final da novela.
23. E teu pai tinha que subir no telhado pra mexer na antena.
24. E ele gritava lá de cima “melhorou?”
25. E tu, embaixo, avisavas: “melhorou o 5, o 7 e o 9. Piorou o 4, o 11 e o 13”.
26. E nunca todos os canais ficavam bons ao mesmo tempo.
27. Chegar na padaria e lembrar que tu tinhas esquecido o casco do refrigerante.
28. A Kombi que trocava garrafas velhas por picolés e pintinhos passava na tua rua um dia depois da tua mãe jogar tudo fora.
29. Tu descobrias que todas as 36 fotos do teu níver tinham ficado desfocadas.
30. E algumas tinham queimado pq o rebobinador da câmera tava meio enguiçado.
31. Qdo sobrava só o lápis branco da caixa de 36.
32. Tu pensavas que ia morrer pq engoliu uma bala Soft

Nossa vida era assim.

E nem faz tanto tempo, mas nossos filhos nem têm ideia do que significa tudo isso.

Publicado em 18 de dezembro de 2018.