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domingo, 2 de janeiro de 2022

19 DICAS PARA ESCREVER BEM


1. Evite repetir a mesma palavra, porque essa palavra vai se tornar uma palavra repetitiva e, assim, a repetição da palavra fará com que a palavra repetida diminua o valor do texto em que a palavra se encontre repetida!


2. Fuja ao máx. da utiliz. de abrev., pq elas tb empobrecem qquer. txt ou mensag. que vc. escrev.


3. Remember: Estrangeirismos never! Eles estão out! Já a palavra da língua portuguesa é very nice! Ok?


4. Você nunca deve estar usando o gerúndio! Porque, assim, vai estar deixando o texto desagradável para quem vai estar lendo o que você vai estar escrevendo. Por isso, deve estar prestando atenção, pois, caso contrário, quem vai estar recebendo a mensagem vai estar comentando que esse seu jeito de estar redigindo vai estar irritando todas as pessoas que vão estar lendo!


5. Não apele pra gíria, mano, ainda que pareça tipo assim, legal, da hora, sacou? Então joia. Valeu!


6. Abstraia-se, peremptoriamente, de grafar terminologias vernaculares classicizantes, pinçadas em alfarrábios de priscas eras e eivadas de preciosismos anacrônicos e esdrúxulos, inconciliáveis com o escopo colimado por qualquer escriba ou amanuense.


7. Jamais abuse de citações. Como alguém já disse: “Quem anda pela cabeça dos outros é piolho”. E “Todo aquele que cita os outros não tem ideias próprias”!


8. Lembre-se: o uso de parêntese (ainda que pareça ser necessário) prejudica a compreensão do texto (acaba truncando seu sentido) e (quase sempre) alonga desnecessariamente a frase.


9. Frases lacônicas, com apenas uma palavra? NUNCA!


10. Não use redundâncias, ou pleonasmos ou tautologias na redação. Isso significa que sua redação não precisa dizer a mesmíssima coisa de formas diferentes, ou seja, não deve repetir o mesmo argumento mais de uma vez. Isso quer dizer, em outras palavras, que não se deve repetir a ideia que já foi transmitida anteriormente por palavras iguais, semelhantes ou equivalentes.


11. A hortografia meresse muinta atensão! Preciza ser corrijida ezatamente para não firir a lingúa portuguêza!


12. Não abuse das exclamações! Nunca!!! Jamais!!! Seu texto ficará intragável!!! Não se esqueça!!!


13. Evitar-se-á sempre a mesóclise. Daqui para frente, pôr-se-á cada dia mais na memória: “Mesóclise: evitá-la-ei”! Exclui-la-ei! Abominá-la-ei!”


14. Muita atenção para evitar a repetição de terminação que dê a sensação de poetização! Rima na prosa não se entrosa: é coisa desastrosa, além de horrorosa!


15. Fuja de todas e quaisquer generalizações. Na totalidade dos casos, todas as pessoas que generalizam, sem absolutamente qualquer exceção, criam situações de confusão total e geral.


16. A voz passiva deve ser evitada, para que a frase não seja passada de maneira não destacada junto ao público para o qual ela vai ser transmitida.


17. Seja específico: deixe o assunto mais ou menos definido, quase sem dúvida e até onde for possível, com umas poucas oscilações de posicionamento.


18. Como já repeti um milhão de vezes: evite o exagero. Ele prejudica a compreensão de todo o mundo!


19. Por fim, lembre-se sempre: nunca deixe frases incompletas. Elas sempre dão margem a


Foto de Nina Leen com o premiado escritor James Michener,
ganhador do Prêmio Pulitzer de 1948.

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

O AINDA DESCONHECIDO DOSTOIÉVSKI E SEUS 200 ANOS DE NASCIMENTO


Professor João Armando Nicotti (*) analisa alguns contos, não tão populares do escritor russo, cujo bicentenário é lembrado neste mês.

    Mesmo o leitor dostoievskiano corre o risco de ignorar o “ainda desconhecido” Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski aqui apresentado. Claro que, como qualquer especulação, há erro possível, mas listo alguns títulos que, em regra, podem ser desconhecidos ou deixados num segundo plano. Há mais outros tantos, considerando contos iniciais do final do decênio de 1840, como “Romance em nove cartas”, “Polzunkov”, “O ladrão honesto”, “Um coração fraco”, “A mulher de outro e o marido debaixo da cama”, “Uma árvore de natal e um casamento”, “Uma história desagradável” (1882), o folhetim “Sonhos de Petersburgo em verso e prosa” (1871), etc.


    Dostoiévski nasce em Moscou e morre em São Petersburgo segundo o calendário juliano, ou seja, 30 de outubro de 1821 e morre em 28 de janeiro de 1881. Valem como efemérides os anos de 1821 e 1881 para este evento de 2021; 200 anos de seu nascimento (e, apenas enquanto notícia, - 140 de sua morte.


    Quem já não passou pelos títulos “Escritos da casa morta”, “Memórias do subsolo”, “Crime e castigo”, “Um jogador”, “O eterno marido”, “Os demônios” e “Os irmãos Karamazov” e deixou de se emocionar ou protestar com a gama de possibilidades de interpretações psicossociais de um mundo russo do século XIX que, ultrapassando seus próprios limites, atestam a universalidade de comportamento metafísico, moral, religioso, socioeconômico e psicológico?


    Mas vamos ao Dostoiévski possivelmente “ainda desconhecido”.


    “O senhor Prokhartchin” (1846), da produção da primeira fase do autor. Com um ritmo narrativo trancado e com ideias desrticuladas, Siemion Prokhartchin descola-se da realidade como sujeito que se deixa ficar no local que habita atrás de um biombo. Um baú enigmático embaixo de sua cama (que intriga a senhoria Ustínia e os demais inquilinos) e o estranhamento de sua conduta levam seus pares a crerem num infortúnio de vida somado à extravagância e atitudes e aproximação com sujeitos suspeitos. Ironia, conflito e isolamento fortalecem a avareza e o egoísmo de Prokhartchin denunciados pela pretensa pobreza. O social e o psicológico estimulam o medo de um homem que se aniquila pela fantasmagoria da possível extinção de seu local de trabalho – uma repartição pública na Rússia. Não atendendo às expectativas de sociabilidade, Prokhartchin deixa o suspense de sua vida até o final do enredo, o qual se revela ambíguo.


    Em “Niétotchka Niezvânova”, a partir da expressão “Niet (Hel) – Não, em russo, certamente Dostoiévski quis designar pessoas abandonadas, referência biográfica à Niétotchka Niernânova, que se vê de casa em casa depois das mortes da mãe e do padrasto. Assim a própria Niétotchka narra sua vida pregressa até seus 15 anos. Provavelmente, Ana é mulher madura quando escreve suas confissões, tamanho o grau de discernimento ao vivido. A têmpera psicológica de Niétotchka passa, até evoluir positivamente por momentos de “crises nervosas” e “devaneios” sobre sua infância, sua pobreza, a figura enigmática do padrasto violinista, a morte da mãe, a fuga do padrasto, a adoção em casa do príncipe K., o luxo, sua educação, os negaceios com Kátia (ódio e paixão até a separação) e a sua nova estadia em casa de Aleksandra e Piotr. O romance é inacabado e parte de sua publicação ocorre no princípio de 1849, com o autor já preso na Fortaleza de Pedro e Paulo.


    O leitor de Dostoiévski sabe o quanto o autor desenvolve os seus escritos de maturidade, a presença das crianças e o quanto estas sofrem no mundo dos adultos. “Um pequeno herói” é de 1849, com publicação em 1857. O ponto de vista é o de um menino de 11 anos que, no tempo presente, torna-se o adulto de seu próprio mundo vivido no passado. Foi escrito quando o autor estava preso na Fortaleza Pedro e Paulo, sendo o modo que Dostoiévski encontra para suportar a adversidade do momento. Deste modo, há um pequeno grupo que apenas se diverte e que está distante dos problemas sociais da Rússia por investir na própria futilidade, não havendo espaço para mujiques esfomeados, mulheres enlouquecidas pela miséria, epilépticos e, tampouco, estudantes a perambular por ruas sombrias e inumanas para eliminar piolhos sociais. Neste contexto, aparece um garoto que desfruta da apoteose do prazer social a descobrir seu primeiro amor pela casada Madame M*. No final do enredo, vê-se a possibilidade de regeneração do mundo dos homens – ponto importante em futuras obras de Dostoiévski.


    Em “O sonho do titio” (1859), a discussão proposta por Dostoiévski é a tediosa província de Mordássov e seus moradores. Dostoiévski parte de um sonho que não é sonho, pois é colocado na cabeça do Titio (o príncipe K. ou Gavrila) algo como sonho para substituir a realidade tal como se apresenta (o pedido de casamento do príncipe à Zinaída). O Titio não é tio legítimo do sobrinho impostor Pável. A estrutura familiar apoiada na figura do Titio não é o centro da discussão, mas sim, na de dois personagens: Mária e Pável, deixando a figura do próprio Titio em segundo plano, embora destaque-se a sua comicidade.


    Diferente é o título “A aldeia de Stepántchikov e seus habitantes" (1859), pois, nesse texto, a ideia central é, de fato, a família e não a aldeia sugerida. Cada habitante surge de dentro da casa de Iegor, como saindo sem muita pretensão, meio sem querer, até desvendar-se por meio das falas e dos comportamentos estranhos associados a conchavos e à luta por espaços na aldeia – casa de Iegor. O parasitismo, a hipocrisia e o humor formam a trama. O que o leitor espera basicamente não ocorre, pois o social da aldeia é diminuído e o emblemático conflito fica entre quatro paredes. O movimento de atração é a casa e Iegor Rostániev e o movimento é de “fora para dentro”, enquanto que, em “O sonho de Titio”, pode-se imaginar como de “dentro para fora”. Figura impagável de influência e comicidade é a de Fomá Fomitch, agregado de Iegor, personagem admirado pelo escritor argentino Julio Cortázar (1914 – 1984).


    Em “Notas de inverno sobre impressões de verão” (1862/1863), o narrador é um doente, sofre do fígado, sabe que mentirá e vê no espelho sua língua amarela e maligna. Notas está no caderno de notas que o narrador consulta para recuperar sua viagem ao ocidente, durante dois meses e meio, ao visitar Berlim, Dressen, Wiesbaden, Baden-Baden, Colônia, Paris, Londres, Lucerna, Genebra, Gênova, Florença, Milão, Veneza e Viena. Sobre a Europa, tece comentários sobre progresso, socialismo, mulheres, casamento, miséria, mentiras, etc. O que perpassa Notas é o pensamento que o russo não abre mão de sua base moral, por ter noção que esta pode ser delinquida, enquanto que o europeu toma o mal pelo bem. Destaque para “Ensaio sobre o burguês” e suas reflexões sobre o lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” e o temor do burguês resumir-se ao fato de ter alcançado tudo e perder tudo, pois quem mais teme é quem mais prospera. Segundo o narrador, somente na Rússia existe esta relação de consciência entre indivíduo e comunidade: só os russos são capazes de fraternidade.


    O enredo de “O crocodilo” (1864) é construído com presteza, pois Dostoiévski acrescenta, ao fantástico, o estranhamento do capitalismo que divide opiniões, causa desconforto e dúvida. O capitalismo é personagem e a metáfora em Carlinhos, o crocodilo, implacável. O que o rege é o “princípio econômico em primeiro lugar” e a “atração de capitais estrangeiros”. Deste modo, o crocodilo valoriza Ivan Matviéitch ao engoli-lo e este sente destacado, pois, paradoxalmente, dentro do animal, há o vazio. Incompleto e desumano, o crocodilo/capitalista é defendido por jornais, ressonância do que ocorre na Rússia pós abolição dos servos em 1861. A arrogância de Ivan é proporcional ao destaque que o crocodilo lhe permite, ou seja, o de pertencer ao sistema capitalista.


    Nessa linha do fantástico, há o conto “Bobók” (1873). Estruturado com o narrador Ivan Ivanovitch e sua relação rápida com retratista, editores, parente morto e grupo de mortos que se fazem escutar quando ele, Ivan, distraído, dormia em cima de sepultura. Em nível dos mortos, há diferentes classes sociais da Rússia do século XIX, predominando, entretanto, a abastada, pois entre os mortos há apenas um verdadeiro. Desta conversa, Ivan serve-se como crítica à classe rica deteriorada moralmente, em situação similar quando do odor do morto; no conto, o fedor é a moral construída em vida. O resto de vida que há nos mortos é apenas a consciência.


    A novela “O sonho de um homem ridículo” (1877) apresenta solilóquio em torno dos pensamentos imaginários do protagonista-narrador-suicida (pois se mata em sonho). Sua relação com outros personagens é de apatia e indiferença até, ao menos à descrição do sonho, quando o narrador vive com homens felizes numa espécie de Idade de Ouro. No fim do relato, retoma-se a descrição e a reflexão fora do sonho, mas com a convicção deste sonho para a construção digna da humanidade. O protagonista deixa a indiferença para crer num estado de transformação dos homens. Sua convicção, após ter visto a Verdade, é a de pregar pelo mundo, apesar da descrença dos homens e de suas relações apoiadas pela razão. O tom profético e religioso torna possível de o homem ter uma vida harmônica e repleta de amor e consideração pelo outro, removendo o egoísmo, o ciúme, a falta de solidariedade e a patifaria e canalhice do conhecimento da racionalidade.


    No ano de comemorações e, decerto, de atualização da obra de Dostoiévski, ainda há muita leitura do conjunto da obra do autor russo a ser preenchida. O ideal, entretanto, é discuti-lo sempre que nossa ansiedade por leituras e traduções novas e inteligentes, como a recente “Crônicas de Petersburgo” (tradução de Fátima Bianchi) estejam capazes de oportunizar a sagaz cidade do texto do autor de “Os demônios” e se deparar com o raciocínio de Kapiton Maksimovitch: “...de um modo geral observei que de dia se perde um pouco a fé”.


Publicado no Caderno de Sábado

do Jornal Correio do Povo

em 6 de novembro de 2021


(*) Professor de Literatura Brasileira. 
Curso de Extensão em Língua Russa pela UFRGS.




segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Mário Quintana - Seiscentos e Sessenta e Seis

 

Esse poema abaixo, de autoria de Mário Quintana, é muito pouco conhecido/divulgado sob este título. É usual encontrarmos este poema intitulado como O TEMPO.

Ocorre porém, que aquela versão não segue ipsis litteris a versão original do poema.

Logo, em respeito à obra do grande poeta gaúcho, publico aqui o poema original. Talvez por desconhecimento ou por achar essa versão apócrifa mais romântica, muitas pessoas acabam compartilhando desse jeito errado.

Apresento abaixo a versão e título originais e mais adiante a outra amplamente divulgada e muito compartilhada pelas redes sociais.


SEISCENTOS E SESSENTA E SEIS


A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…

Quando se vê, já é 6ª feira…

Quando se vê, passaram 60 anos…

Agora, é tarde demais para ser reprovado…

E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,

eu nem olhava o relógio

seguia sempre, sempre em frente…


E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.


Mário Quintana

(Poema publicado originalmente no livro Esconderijos do Tempo)



O TEMPO

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são seis horas!

Quando se vê, já é sexta-feira!

Quando se vê, já é Natal.

Quando se vê, já terminou o ano.

Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.

Quando se vê, passaram 50 anos.

Agora é tarde demais para ser reprovado.

Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.

Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu a amo.

E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à flta de tempo.

Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.

A única falta que terá, será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.”

Mário Quintana

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Os Melhores Poemas de Fernando Pessoa - 06

Pedimos aos leitores e colaboradores — escritores, jornalistas,  professores — que apontassem os poemas mais significativos de Fernando Pessoa. Escritor e poeta, Fernando Pessoa é considerado, ao lado de Luís de Camões, o maior poeta da língua portuguesa e um dos maiores da literatura universal. O crítico literário Harold Bloom afirmou que a obra de Fernando Pessoa é o legado da língua portuguesa ao mundo.

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, em junho de 1888, e morreu em novembro de 1935, na mesma cidade, aos 47 anos, em consequência de uma cirrose hepática. Sua última frase foi escrita na cama do hospital, em inglês, com a data de 29 de Novembro de 1935: ‘I know not what tomorrow will bring’ (Não sei o que o amanhã trará).

Seus poemas mais conhecidos foram assinados pelos heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro, além de um semi-heterônimo, Bernardo Soares, que seria o próprio Pessoa, um ajudante de guarda-livros da cidade de Lisboa e autor do “Livro do Desassossego”, uma das obras fundadoras da ficção portuguesa no século 20. Além de exímio poeta, Fernando Pessoa foi um grande criador de personagens. Mais do que meros pseudônimos, seus heterônimos foram personagens completos, com biografias próprias e estilos literários díspares. Álvaro de Campos, por exemplo, era um engenheiro português com educação inglesa e com forte influência do simbolismo e futurismo. Ricardo Reis era um médico defensor da monarquia e com grande interesse pela cultura latina. Alberto Caeiro, embora com pouca educação formal e uma posição anti-intelectualista (cursou apenas o primário), é considerado um mestre. Com uma linguagem direta e com a naturalidade do discurso oral, é o mais profícuo entre os heterônimos. São seus “O Guardador de Rebanhos”, “O Pastor Amoroso” e os “Poemas Inconjuntos”. Em virtude do tamanho, alguns poemas tiveram apenas trechos publicados. Eis a lista baseada no número de citações obtidas.


Antes do voo da ave, que passa e não deixa rastro,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.

A recordação é uma traição à Natureza.
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.

Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!

7-5-1914 Fernando Pessoa 

terça-feira, 23 de abril de 2019

Amores Caninos - Nei Lisboa

 

Deus é pai, dizem, e finalmente o Luther chegou lá também. Meu pastor alemão nascido na Tinga beira a terceira idade, na tabela canina, e mais um pouco passava pelo mundo sem conhecer a graça de uma bimbada e sem deixar prole. Nunca lhe faltou boa pinta, ao contrário, e muito menos apetite para a função, mas foram raras as oportunidades em que pôde apresentar seus dotes. Ao dono, confesso, talvez aborrecesse batalhar para o cão o que para si próprio já era escasso. Enfim, algumas chances teve, às vezes mais para o lado da chanchada que do romantismo.

A primeira desastrada tentativa deu-se com uma vizinha balzaca, de raça indefinida, e certamente passada do momento propício, pelo mau humor pré-menstrual com que confinou o jovem pretendente ao fundo do pátio e declarou-se exclusiva proprietária da água e da comida. Bastaram dois dias para que se abortasse a operação e alguns anos para tentar novamente um acasalamento sem traumas.

A segunda noiva era em tudo o oposto, meiga, amorosa, generosa com o assédio incansável do cusco, este já alucinando em sua carência de sexo. Ao longo de dois cios, estiveram juntos por mais de vinte dias como um perfeito par de apaixonados, buscando a cópula em todos os recônditos e degraus do pátio. E nada feito. Como parecia ser uma pontaria descalibrada do Luther o que melava o coito e, literalmente, o pátio todo, os donos de ambos, inconformados, partimos para a inseminação artificial em uma clínica especializada. Nada feito também e, soubemos depois, foi melhor assim. Aparentemente, a moça tinha lá bem apertados seus pudores, e se por um acaso a inseminação houvesse vingado, veja só, teria de passar por uma cesariana.

Já estava então me conformando com o destino tragicamente virgem do preto velho quando uma nova candidata apareceu. Chegou num final de tarde, sem muita conversa, sem parecer muito efusiva, embora receptiva ao amor. Nem prestei muita atenção na atividade noturna do pátio, mais preocupado estava com um dedo inchando que ainda me levaria ao pronto-socorro, tinha me metido a apartar uma rusga dos dois na hora de servir a comida. Foi-se embora no outro dia, não sem antes levar de lembrança um pedaço do supercílio do Luther, que não lhe fez falta, curou rapidamente tal como o meu dedo. Dois meses depois, a notícia: oito filhotes, alguns são a cara do pai, me informam. A cara que, só agora percebo, anda com um lampejo novo de tranquila felicidade, mesmo quando esquece a língua pendurada feito gravata frouxa e desvia o olhar, um tanto constrangido de admitir que, a quem morder e de quem parir, são sempre e somente elas que decidem.
Nei Lisboa

(Publicado originalmente no Segundo Caderno de Zero Hora, novembro de 2004,

e no livro "É Foch!", L&PM, 2007)

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Amor ou Posse - Nietzsche


“O nosso amor pelo próximo não será o desejo imperioso de uma nova propriedade? E não sucede o mesmo com o nosso amor pela ciência, pelo saber, pela verdade? E igualmente com todos os desejos de novidade?

Cansamo-nos pouco a pouco do antigo, do que possuímos com certeza, temos ainda necessidade de estender as mãos; mesmo a mais bela paisagem, quando vivemos diante dela mais de três meses, deixa de nos poder agradar, qualquer margem distante nos atrai mais: geralmente uma posse reduz-se com o uso. O prazer que tiramos a nós próprios procura manter-se, transformando sempre qualquer coisa nova em nós mesmos, é precisamente a isso que se chama possuir. Cansar- se de uma posse é cansar-se de si próprio.

Chama também de “amor” a este desejo de uma nova posse que despertou na sua alma e tem prazer nisso como diante de uma nova conquista iminente. Mas é o amor de sexo para sexo que se revela mais nitidamente como um desejo de posse: aquele que ama quer ser possuidor exclusivo da pessoa que deseja, quer ter poder absoluto tanto sobre a sua alma como sobre o seu corpo, quer ser amado unicamente, habitar e reinar na outra alma como o mais alto e o mais desejável.

Se considerarmos que isso não significa outra coisa senão excluir o mundo inteiro do gozo de um bem, de uma felicidade preciosa; se pensarmos que aquele que ama visa empobrecer e privar todos os competidores, e tornar-se o dragão do seu tesouro, sendo o mais implacável “conquistador”, o explorador mais egoísta; se imaginarmos, por fim, que todo o resto do mundo lhe parece indiferente, desbotado, sem valor, e que se encontra disposto a efetuar qualquer sacrifício, a perturbar qualquer ordem estabelecida, a relegar para segundo plano qualquer interesse: então, espantamo-nos que esta cupidez bárbara, esta furiosa injustiça do amor sexual tenha sido a tal ponto glorificada, divinizada, em todos os períodos da história, que se tenha extraído deste amor a idéia de amor concebida como contrária do egoísmo, quando representa talvez a sua expressão mais nítida.

Existe realmente, aqui e além na terra, uma espécie de prolongamento do amor, no qual o desejo que dois seres experimentam um pelo outro dá lugar a um novo desejo, uma nova cobiça, a uma sede superior comum, a de um ideal que os ultrapassa a ambos: mas quem é que conhece tal amor? Quem já o viveu?

O seu verdadeiro nome é amizade.”


(Friedrich Nietzsche)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Descobertas



"Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza.

Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. 

Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco."

Gabriel Garcia Marquez

domingo, 16 de dezembro de 2018

Os Melhores Poemas de Vinícius de Moraes - 09 - Poema de Natal


Sobre o poeta Vinicius de Moraes escreveu Carlos Drummond de Andrade: “Vinicius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural. Eu queria ter sido Vinicius de Moraes”.

Vinicius de Moraes nasceu no Rio de Janeiro em 19 de outubro de 1913, e morreu na madrugada de 9 de julho de 1980, aos 67 anos, devido a problemas decorrentes de uma isquemia cerebral.

Os poemas selecionados foram publicados nos livros “Cinco Elegias”, “Poemas, Sonetos e Baladas”, “Novos Poemas”, “Novos Poemas (II)” “Pátria Minha”, Livro de Sonetos” e “Antologia Poética”.

POEMA DE NATAL

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.