Professor João Armando Nicotti (*) analisa alguns contos, não tão populares do escritor russo, cujo bicentenário é lembrado neste mês.
Mesmo
o leitor dostoievskiano corre o risco de ignorar o “ainda
desconhecido” Fiódor
Mikhailovitch
Dostoiévski
aqui apresentado. Claro
que, como
qualquer especulação,
há
erro possível, mas listo alguns títulos que,
em
regra,
podem ser desconhecidos ou deixados num segundo plano. Há mais
outros
tantos,
considerando contos iniciais do final do decênio
de 1840, como “Romance em nove cartas”, “Polzunkov”, “O
ladrão honesto”, “Um coração fraco”, “A mulher de outro e
o marido debaixo da cama”, “Uma árvore de natal e um casamento”,
“Uma história desagradável” (1882),
o folhetim “Sonhos de Petersburgo em verso e prosa” (1871), etc.
Dostoiévski
nasce em Moscou e morre em São Petersburgo segundo o calendário
juliano, ou seja, 30 de outubro de 1821 e morre em 28 de janeiro de
1881. Valem como efemérides os anos de 1821 e 1881 para este evento
de 2021; 200 anos de seu nascimento (e, apenas enquanto notícia, -
140 de sua morte.
Quem
já não passou pelos títulos “Escritos da casa morta”,
“Memórias do subsolo”, “Crime e castigo”, “Um jogador”,
“O eterno marido”, “Os demônios” e “Os irmãos Karamazov”
e deixou de se emocionar ou protestar com a gama de possibilidades de
interpretações psicossociais de um mundo russo do século XIX que,
ultrapassando seus próprios limites, atestam a universalidade de
comportamento metafísico, moral, religioso, socioeconômico e
psicológico?
Mas
vamos ao Dostoiévski possivelmente “ainda desconhecido”.
“O
senhor Prokhartchin”
(1846), da produção da primeira fase do autor. Com um ritmo
narrativo trancado e com ideias desrticuladas, Siemion
Prokhartchin descola-se da realidade como sujeito que se deixa ficar
no local que habita atrás de um biombo. Um baú enigmático embaixo
de sua cama (que intriga a senhoria Ustínia e os demais inquilinos)
e
o estranhamento de sua conduta levam seus pares a crerem num
infortúnio de vida somado à extravagância e
atitudes e aproximação com sujeitos suspeitos. Ironia, conflito e
isolamento fortalecem a avareza e o egoísmo de Prokhartchin
denunciados
pela pretensa pobreza. O social e o psicológico estimulam o medo de
um homem que se aniquila pela fantasmagoria da possível extinção
de seu local de trabalho – uma repartição pública na Rússia.
Não atendendo às expectativas de sociabilidade, Prokhartchin
deixa
o suspense de sua vida até o final do enredo, o qual se revela
ambíguo.
Em
“Niétotchka
Niezvânova”, a
partir da expressão “Niet
(Hel) – Não, em russo, certamente
Dostoiévski quis designar pessoas abandonadas,
referência biográfica à Niétotchka Niernânova, que se vê de
casa em casa depois das mortes da mãe e do padrasto. Assim a própria
Niétotchka narra sua vida pregressa até seus 15 anos.
Provavelmente, Ana é mulher madura quando escreve suas confissões,
tamanho o grau de discernimento ao vivido. A têmpera psicológica de
Niétotchka passa,
até evoluir positivamente por momentos de “crises nervosas” e
“devaneios” sobre sua infância, sua pobreza, a figura enigmática
do padrasto violinista, a morte da mãe, a fuga do padrasto, a adoção
em casa do príncipe K., o luxo, sua educação, os negaceios com
Kátia (ódio e paixão até a separação) e a sua nova estadia em
casa de Aleksandra e Piotr. O romance é inacabado e parte de sua
publicação ocorre no princípio de 1849, com o autor já preso na
Fortaleza de Pedro e Paulo.
O
leitor
de Dostoiévski sabe o quanto o autor desenvolve os seus escritos de
maturidade, a presença das crianças e o quanto estas sofrem no
mundo dos adultos. “Um pequeno
herói” é de 1849, com publicação em 1857. O ponto de vista é o
de um menino de 11 anos que, no tempo presente, torna-se o adulto de
seu próprio mundo vivido no passado. Foi escrito quando o autor
estava preso na Fortaleza Pedro e Paulo, sendo o modo que Dostoiévski
encontra para suportar a adversidade do momento. Deste modo, há um
pequeno grupo que apenas se diverte e que está distante dos
problemas sociais da Rússia por investir na própria futilidade, não
havendo espaço para mujiques esfomeados, mulheres enlouquecidas pela
miséria, epilépticos e, tampouco, estudantes a perambular por ruas
sombrias e inumanas para eliminar piolhos sociais. Neste contexto,
aparece um garoto que desfruta da apoteose do prazer social a
descobrir seu primeiro amor pela casada Madame M*. No final do
enredo, vê-se a possibilidade de regeneração do mundo dos homens –
ponto importante em futuras obras de Dostoiévski.
Em
“O sonho do titio” (1859), a discussão proposta por Dostoiévski
é a tediosa província de Mordássov e seus moradores. Dostoiévski
parte de um sonho que não é sonho, pois é colocado na cabeça do
Titio (o príncipe K. ou Gavrila) algo como sonho para substituir a
realidade tal como se apresenta (o pedido de casamento do príncipe à
Zinaída). O Titio não é tio legítimo do sobrinho impostor Pável.
A estrutura familiar apoiada na figura do Titio não é o centro da
discussão, mas sim, na de dois personagens: Mária e Pável,
deixando a figura
do próprio Titio
em segundo plano, embora
destaque-se a sua comicidade.
Diferente
é o título “A aldeia de Stepántchikov e seus habitantes" (1859),
pois, nesse texto, a ideia central é, de fato, a família e não a
aldeia sugerida. Cada habitante surge de dentro da casa de Iegor,
como saindo sem muita pretensão, meio sem querer, até desvendar-se
por meio das falas e dos comportamentos estranhos associados a
conchavos e à luta por espaços na aldeia – casa de Iegor.
O
parasitismo, a hipocrisia
e o humor formam a trama. O que o leitor espera basicamente não
ocorre, pois o social da aldeia é diminuído e o emblemático
conflito fica entre quatro paredes. O movimento de atração é a
casa e Iegor Rostániev e o movimento é de “fora para dentro”,
enquanto que, em “O sonho de Titio”, pode-se imaginar como de
“dentro para fora”. Figura impagável de influência e comicidade
é a de Fomá Fomitch, agregado de Iegor, personagem admirado pelo
escritor argentino Julio Cortázar (1914 – 1984).
Em
“Notas de inverno sobre impressões de verão” (1862/1863), o
narrador é um doente, sofre do fígado, sabe que mentirá e vê no
espelho sua língua amarela e maligna. Notas está no caderno de
notas que o narrador consulta para recuperar sua viagem ao ocidente,
durante dois meses e meio, ao visitar Berlim, Dressen, Wiesbaden,
Baden-Baden, Colônia, Paris, Londres, Lucerna, Genebra, Gênova,
Florença, Milão, Veneza e Viena. Sobre a Europa, tece comentários
sobre progresso, socialismo, mulheres, casamento, miséria, mentiras,
etc. O que perpassa Notas é o pensamento que o russo não abre mão
de sua base moral, por ter noção que esta pode ser delinquida,
enquanto que o europeu toma o mal pelo bem. Destaque para “Ensaio
sobre o burguês” e suas reflexões sobre o lema “Liberdade,
Igualdade e Fraternidade” e o temor do burguês resumir-se ao fato
de ter alcançado tudo e perder tudo, pois quem mais teme é quem
mais prospera. Segundo o narrador, somente na Rússia existe esta
relação de consciência entre indivíduo e comunidade: só os
russos são capazes de fraternidade.
O
enredo de “O crocodilo” (1864) é construído com presteza, pois
Dostoiévski acrescenta, ao fantástico, o estranhamento do
capitalismo que divide opiniões, causa desconforto e dúvida. O
capitalismo
é personagem e a metáfora em Carlinhos, o crocodilo, implacável. O
que o rege é o “princípio econômico em primeiro lugar” e a
“atração de capitais estrangeiros”. Deste modo, o crocodilo
valoriza Ivan Matviéitch
ao
engoli-lo
e este sente destacado, pois, paradoxalmente, dentro do animal, há o
vazio. Incompleto e desumano, o crocodilo/capitalista é defendido
por jornais, ressonância do que ocorre na Rússia pós abolição
dos servos em 1861. A arrogância de Ivan é proporcional ao destaque
que o crocodilo lhe permite, ou seja, o de pertencer ao sistema
capitalista.
Nessa
linha do fantástico, há o conto “Bobók” (1873). Estruturado
com o narrador Ivan Ivanovitch e sua relação rápida com
retratista, editores, parente morto e grupo de mortos que se fazem
escutar quando ele, Ivan, distraído, dormia em cima de sepultura. Em
nível dos mortos, há diferentes classes sociais da Rússia do
século XIX, predominando, entretanto, a abastada, pois
entre os mortos há apenas um verdadeiro. Desta conversa, Ivan
serve-se como crítica à classe rica deteriorada moralmente, em
situação similar quando do odor do morto; no conto, o fedor é a
moral construída em vida. O resto de vida que há nos mortos é
apenas a consciência.
A
novela
“O sonho de um homem ridículo” (1877) apresenta solilóquio em
torno dos pensamentos imaginários do protagonista-narrador-suicida
(pois se mata em sonho). Sua relação com outros personagens é de
apatia e indiferença até, ao menos à descrição do sonho, quando
o narrador vive com homens felizes numa espécie de Idade de Ouro. No
fim do relato, retoma-se
a descrição e a reflexão fora do sonho, mas com a convicção
deste sonho para a construção digna da humanidade. O protagonista
deixa a indiferença para crer num estado de transformação dos
homens. Sua convicção, após ter visto a Verdade, é a de pregar
pelo mundo, apesar da descrença dos homens e de suas relações
apoiadas pela razão. O tom profético e religioso torna possível de
o homem ter uma vida harmônica e repleta de amor e consideração
pelo outro, removendo o egoísmo, o ciúme, a falta de solidariedade
e a patifaria e canalhice do conhecimento da racionalidade.
No
ano de comemorações e, decerto, de atualização da obra de
Dostoiévski, ainda há muita leitura do conjunto da obra do autor
russo a ser preenchida. O ideal, entretanto, é discuti-lo
sempre que nossa ansiedade por leituras e traduções novas e
inteligentes, como a recente “Crônicas de Petersburgo” (tradução
de Fátima Bianchi) estejam capazes de oportunizar a sagaz cidade do
texto do autor de “Os demônios” e se deparar com o raciocínio
de Kapiton Maksimovitch:
“...de
um modo geral observei que de dia se perde um pouco a fé”.
Publicado
no Caderno de Sábado
do
Jornal Correio do Povo
em
6 de novembro de 2021
(*) Professor de Literatura Brasileira.
Curso de Extensão em Língua Russa pela UFRGS.