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segunda-feira, 8 de novembro de 2021

O AINDA DESCONHECIDO DOSTOIÉVSKI E SEUS 200 ANOS DE NASCIMENTO


Professor João Armando Nicotti (*) analisa alguns contos, não tão populares do escritor russo, cujo bicentenário é lembrado neste mês.

    Mesmo o leitor dostoievskiano corre o risco de ignorar o “ainda desconhecido” Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski aqui apresentado. Claro que, como qualquer especulação, há erro possível, mas listo alguns títulos que, em regra, podem ser desconhecidos ou deixados num segundo plano. Há mais outros tantos, considerando contos iniciais do final do decênio de 1840, como “Romance em nove cartas”, “Polzunkov”, “O ladrão honesto”, “Um coração fraco”, “A mulher de outro e o marido debaixo da cama”, “Uma árvore de natal e um casamento”, “Uma história desagradável” (1882), o folhetim “Sonhos de Petersburgo em verso e prosa” (1871), etc.


    Dostoiévski nasce em Moscou e morre em São Petersburgo segundo o calendário juliano, ou seja, 30 de outubro de 1821 e morre em 28 de janeiro de 1881. Valem como efemérides os anos de 1821 e 1881 para este evento de 2021; 200 anos de seu nascimento (e, apenas enquanto notícia, - 140 de sua morte.


    Quem já não passou pelos títulos “Escritos da casa morta”, “Memórias do subsolo”, “Crime e castigo”, “Um jogador”, “O eterno marido”, “Os demônios” e “Os irmãos Karamazov” e deixou de se emocionar ou protestar com a gama de possibilidades de interpretações psicossociais de um mundo russo do século XIX que, ultrapassando seus próprios limites, atestam a universalidade de comportamento metafísico, moral, religioso, socioeconômico e psicológico?


    Mas vamos ao Dostoiévski possivelmente “ainda desconhecido”.


    “O senhor Prokhartchin” (1846), da produção da primeira fase do autor. Com um ritmo narrativo trancado e com ideias desrticuladas, Siemion Prokhartchin descola-se da realidade como sujeito que se deixa ficar no local que habita atrás de um biombo. Um baú enigmático embaixo de sua cama (que intriga a senhoria Ustínia e os demais inquilinos) e o estranhamento de sua conduta levam seus pares a crerem num infortúnio de vida somado à extravagância e atitudes e aproximação com sujeitos suspeitos. Ironia, conflito e isolamento fortalecem a avareza e o egoísmo de Prokhartchin denunciados pela pretensa pobreza. O social e o psicológico estimulam o medo de um homem que se aniquila pela fantasmagoria da possível extinção de seu local de trabalho – uma repartição pública na Rússia. Não atendendo às expectativas de sociabilidade, Prokhartchin deixa o suspense de sua vida até o final do enredo, o qual se revela ambíguo.


    Em “Niétotchka Niezvânova”, a partir da expressão “Niet (Hel) – Não, em russo, certamente Dostoiévski quis designar pessoas abandonadas, referência biográfica à Niétotchka Niernânova, que se vê de casa em casa depois das mortes da mãe e do padrasto. Assim a própria Niétotchka narra sua vida pregressa até seus 15 anos. Provavelmente, Ana é mulher madura quando escreve suas confissões, tamanho o grau de discernimento ao vivido. A têmpera psicológica de Niétotchka passa, até evoluir positivamente por momentos de “crises nervosas” e “devaneios” sobre sua infância, sua pobreza, a figura enigmática do padrasto violinista, a morte da mãe, a fuga do padrasto, a adoção em casa do príncipe K., o luxo, sua educação, os negaceios com Kátia (ódio e paixão até a separação) e a sua nova estadia em casa de Aleksandra e Piotr. O romance é inacabado e parte de sua publicação ocorre no princípio de 1849, com o autor já preso na Fortaleza de Pedro e Paulo.


    O leitor de Dostoiévski sabe o quanto o autor desenvolve os seus escritos de maturidade, a presença das crianças e o quanto estas sofrem no mundo dos adultos. “Um pequeno herói” é de 1849, com publicação em 1857. O ponto de vista é o de um menino de 11 anos que, no tempo presente, torna-se o adulto de seu próprio mundo vivido no passado. Foi escrito quando o autor estava preso na Fortaleza Pedro e Paulo, sendo o modo que Dostoiévski encontra para suportar a adversidade do momento. Deste modo, há um pequeno grupo que apenas se diverte e que está distante dos problemas sociais da Rússia por investir na própria futilidade, não havendo espaço para mujiques esfomeados, mulheres enlouquecidas pela miséria, epilépticos e, tampouco, estudantes a perambular por ruas sombrias e inumanas para eliminar piolhos sociais. Neste contexto, aparece um garoto que desfruta da apoteose do prazer social a descobrir seu primeiro amor pela casada Madame M*. No final do enredo, vê-se a possibilidade de regeneração do mundo dos homens – ponto importante em futuras obras de Dostoiévski.


    Em “O sonho do titio” (1859), a discussão proposta por Dostoiévski é a tediosa província de Mordássov e seus moradores. Dostoiévski parte de um sonho que não é sonho, pois é colocado na cabeça do Titio (o príncipe K. ou Gavrila) algo como sonho para substituir a realidade tal como se apresenta (o pedido de casamento do príncipe à Zinaída). O Titio não é tio legítimo do sobrinho impostor Pável. A estrutura familiar apoiada na figura do Titio não é o centro da discussão, mas sim, na de dois personagens: Mária e Pável, deixando a figura do próprio Titio em segundo plano, embora destaque-se a sua comicidade.


    Diferente é o título “A aldeia de Stepántchikov e seus habitantes" (1859), pois, nesse texto, a ideia central é, de fato, a família e não a aldeia sugerida. Cada habitante surge de dentro da casa de Iegor, como saindo sem muita pretensão, meio sem querer, até desvendar-se por meio das falas e dos comportamentos estranhos associados a conchavos e à luta por espaços na aldeia – casa de Iegor. O parasitismo, a hipocrisia e o humor formam a trama. O que o leitor espera basicamente não ocorre, pois o social da aldeia é diminuído e o emblemático conflito fica entre quatro paredes. O movimento de atração é a casa e Iegor Rostániev e o movimento é de “fora para dentro”, enquanto que, em “O sonho de Titio”, pode-se imaginar como de “dentro para fora”. Figura impagável de influência e comicidade é a de Fomá Fomitch, agregado de Iegor, personagem admirado pelo escritor argentino Julio Cortázar (1914 – 1984).


    Em “Notas de inverno sobre impressões de verão” (1862/1863), o narrador é um doente, sofre do fígado, sabe que mentirá e vê no espelho sua língua amarela e maligna. Notas está no caderno de notas que o narrador consulta para recuperar sua viagem ao ocidente, durante dois meses e meio, ao visitar Berlim, Dressen, Wiesbaden, Baden-Baden, Colônia, Paris, Londres, Lucerna, Genebra, Gênova, Florença, Milão, Veneza e Viena. Sobre a Europa, tece comentários sobre progresso, socialismo, mulheres, casamento, miséria, mentiras, etc. O que perpassa Notas é o pensamento que o russo não abre mão de sua base moral, por ter noção que esta pode ser delinquida, enquanto que o europeu toma o mal pelo bem. Destaque para “Ensaio sobre o burguês” e suas reflexões sobre o lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” e o temor do burguês resumir-se ao fato de ter alcançado tudo e perder tudo, pois quem mais teme é quem mais prospera. Segundo o narrador, somente na Rússia existe esta relação de consciência entre indivíduo e comunidade: só os russos são capazes de fraternidade.


    O enredo de “O crocodilo” (1864) é construído com presteza, pois Dostoiévski acrescenta, ao fantástico, o estranhamento do capitalismo que divide opiniões, causa desconforto e dúvida. O capitalismo é personagem e a metáfora em Carlinhos, o crocodilo, implacável. O que o rege é o “princípio econômico em primeiro lugar” e a “atração de capitais estrangeiros”. Deste modo, o crocodilo valoriza Ivan Matviéitch ao engoli-lo e este sente destacado, pois, paradoxalmente, dentro do animal, há o vazio. Incompleto e desumano, o crocodilo/capitalista é defendido por jornais, ressonância do que ocorre na Rússia pós abolição dos servos em 1861. A arrogância de Ivan é proporcional ao destaque que o crocodilo lhe permite, ou seja, o de pertencer ao sistema capitalista.


    Nessa linha do fantástico, há o conto “Bobók” (1873). Estruturado com o narrador Ivan Ivanovitch e sua relação rápida com retratista, editores, parente morto e grupo de mortos que se fazem escutar quando ele, Ivan, distraído, dormia em cima de sepultura. Em nível dos mortos, há diferentes classes sociais da Rússia do século XIX, predominando, entretanto, a abastada, pois entre os mortos há apenas um verdadeiro. Desta conversa, Ivan serve-se como crítica à classe rica deteriorada moralmente, em situação similar quando do odor do morto; no conto, o fedor é a moral construída em vida. O resto de vida que há nos mortos é apenas a consciência.


    A novela “O sonho de um homem ridículo” (1877) apresenta solilóquio em torno dos pensamentos imaginários do protagonista-narrador-suicida (pois se mata em sonho). Sua relação com outros personagens é de apatia e indiferença até, ao menos à descrição do sonho, quando o narrador vive com homens felizes numa espécie de Idade de Ouro. No fim do relato, retoma-se a descrição e a reflexão fora do sonho, mas com a convicção deste sonho para a construção digna da humanidade. O protagonista deixa a indiferença para crer num estado de transformação dos homens. Sua convicção, após ter visto a Verdade, é a de pregar pelo mundo, apesar da descrença dos homens e de suas relações apoiadas pela razão. O tom profético e religioso torna possível de o homem ter uma vida harmônica e repleta de amor e consideração pelo outro, removendo o egoísmo, o ciúme, a falta de solidariedade e a patifaria e canalhice do conhecimento da racionalidade.


    No ano de comemorações e, decerto, de atualização da obra de Dostoiévski, ainda há muita leitura do conjunto da obra do autor russo a ser preenchida. O ideal, entretanto, é discuti-lo sempre que nossa ansiedade por leituras e traduções novas e inteligentes, como a recente “Crônicas de Petersburgo” (tradução de Fátima Bianchi) estejam capazes de oportunizar a sagaz cidade do texto do autor de “Os demônios” e se deparar com o raciocínio de Kapiton Maksimovitch: “...de um modo geral observei que de dia se perde um pouco a fé”.


Publicado no Caderno de Sábado

do Jornal Correio do Povo

em 6 de novembro de 2021


(*) Professor de Literatura Brasileira. 
Curso de Extensão em Língua Russa pela UFRGS.




sábado, 3 de junho de 2017

22 desenhos que mostram exatamente como é o amor nos dias de hoje.



Dizem que amor não se mede com palavras, mas sim com gestos. O artista coreano Puuung parece ter captado isso melhor do que ninguém. Fiquei absolutamente impressionada com as suas ilustrações.
No amor, cada pequena ação pode possuir um grande significado. Para os apaixonados, cada detalhe pode transmitir amor.
“O amor é algo que todo mundo entende. Ele aparece em formas que podem ser facilmente observadas em nossas vidas. Meu objetivo foi encontrar o significado do amor em nosso dia a dia e fazer dele uma peça de arte.”
Foi isso que o artista quis expressar com sua série de ilustrações “O amor é…”
Nela, um casal protagoniza situações cotidianas juntos, e como elas se traduzem em amor. São momentos retratados de maneira acolhedora, em que por meio dos desenhos e cores é possível sentir o carinho e a paixão do casal. É por meio de situações simples, como preparar o café da manhã ou passear juntos, que uma relação amorosa se transforma em algo lindo. 
Todas os desenhos demonstram coisas que fazemos no dia a dia, mas que são um gesto de amor e apreço para com a pessoa que amamos.





















quinta-feira, 24 de março de 2016

Sherlock Holmes x Sigmund Freud - A Cocaína

(...) A utilização da cocaína associada à morfina, ou como alternativa a esta, não se limitava exclusivamente à América. Sir Arthur Conan Doyle era um reconhecido usuário de cocaína, como seu famoso detetive, que utilizava tanto a cocaína quanto a morfina. Uma ampla comparação entre o interesse de Holmes e o de Freud pela cocaína é apresentada em ”Sherlock Holmes e Sigmund Freud”, de David Musto. A obsessão de Holmes pela droga é vivamente descrita por Watson nos parágrafos iniciais de O Signo dos Quatro (1888):

            Sherlock Holmes pegou o frasco sobre a lareira e a seringa hipodérmica no elegante estojo de pelica. Com seus longos, brancos e nervosos dedos, ajustou a delicada agulha e enrolou o punho esquerdo da camisa. Por um breve tempo, seus olhos se fixaram pensativos no antebraço e no pulso vigorosos, inteiramente marcados por inúmeras picadas. Por fim, introduziu até o fundo a ponta fina, pressionou o pequeno êmbolo e, com um longo suspiro de satisfação, deixou-se cair de novo na poltrona forrada de veludo.
            Havia muitos meses que eu testemunhava essa cena três vezes ao dia, mas o hábito não me resignara a ela. Pelo contrário, sua visão me irritava cada dia mais, e todas as noites a consciência me pesava, ao pensar que havia perdido a coragem para protestar. Repetidas vezes gravara na memória a promessa solene de abrir minha alma a respeito do assunto, mas no ar frio e displicente de meu companheiro havia algo que o tornava o último homem com quem se teria vontade de tomar qualquer atitude que se assemelhasse a uma liberdade. Sua grande capacidade, sua conduta irrepreensível e a prova que eu tivera de suas muitas qualidades extraordinárias tornavam-me tímido e relutante em contrariá-lo.
            Naquela tarde, contudo, fosse pelo Beaune que eu tomara no almoço ou pela exasperação adicional produzida pela extrema determinação de seu procedimento, senti de repente que não mais poderia calar.
            ̶  O que é hoje, morfina ou cocaína?  ̶  perguntei.
            Ele ergueu languidamente os olhos do velho volume de couro negro que havia aberto.
          ̶  É cocaína,   ̶  disse  ̶  uma solução de sete por cento. Gostaria de experimentar?
         ̶  Não, de modo algum,  ̶  respondi bruscamente  ̶  Minha constituição ainda não se refez da campanha afegã. Não posso me permitir submetê-la a um esforço adicional.
            Ele sorriu da minha veemência.  ̶  Talvez você tenha razão, Watson,  ̶  disse.  ̶  Creio que ela tenha uma influência fisicamente negativa. No entanto, acho-a tão transcendentalmente estimulante e clarificadora para a mente, que o seu efeito secundário é uma questão de pequena importância.
            ̶  Mas considere!  ̶  eu disse gravemente.  ̶  Pense no custo! Talvez, como você diz, seu cérebro esteja desperto e excitado, mas é um processo patológico e mórbido, que envolve crescente alteração dos tecidos e pode acabar levando a uma debilidade permanente. Pense na reação sinistra que toma conta de você. Seguramente não vale a pena. Por que deveria, por um simples prazer passageiro, por em risco toda essa capacidade de que foi dotado? Lembre-se de que falo não apenas como um camarada ao outro, mas como um médico a alguém por cuja constituição ele é até certo ponto responsável.
            Ele não pareceu ofendido. Ao contrário, juntou as pontas dos dedos e apoiou o cotovelo nos braços da poltrona, como quem aprecia a conversa.
            ̶  Minha mente   ̶  disse   ̶  se rebela contra a estagnação. Dê-me problemas, dê-me trabalho, dê-me o mais enigmático criptograma ou a mais intrincada análise, e eu estou no meu próprio ambiente. Posso então dispensar estimulantes artificiais. Mas detesto a rotina monótona da existência. Anseio pela exaltação mental. É por isso que escolhi a minha profissão específica, ou melhor, criei-a, pois sou o único no mundo.
             ̶  ... Permite-me perguntar se tem agora alguma investigação profissional em andamento?
            ̶  Nenhuma. Daí a cocaína. Não consigo viver sem trabalho intelectual. Para que mais vale a pena viver? Olhe pela janela. Já houve um mundo tão enfadonho, horrível e inútil? Veja como o nevoeiro amarelo rodopia rua abaixo entre as casas encardidas. O que poderia ser mais irremediavelmente prosaico e material? Qual é a vantagem de ter capacidades, doutor, quando não se tem campo para aplicá-las? O crime é lugar-comum, a existência é lugar-comum, e somente as qualidades que são lugares-comuns têm alguma função sobre a terra.

         Em resposta às perguntas de Watson sobre como o detetive poderia ter sido beneficiado pela conclusão bem-sucedida da saga O signo dos quatro, descobrimos que, nas últimas linhas do livro, Holmes está de volta ao ponto em que a aventura teve início:

             ̶  Essa divisão não me parece justa   ̶  observei.   ̶  Você fez todo o trabalho no caso. Eu ganhei uma esposa, Jones ganhou o mérito; diga-me, o que resta para você?
              ̶  Para mim   ̶  disse Sherlock Holmes,   ̶   ainda resta o frasco de cocaína.  ̶  E esticou a longa mão branca para apanhá-lo.
Texto extraído do livro Freud e a Cocaína

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

ENCERRA-SE MAIS UM ANO EM SUA VIDA...


Quando esse ano começou, ele era todo teu.
Foi colocado em tuas mãos...
Tu podias fazer dele o que quisesse...
Era como um Livro em Branco, e nele tu podias colocar um poema, um pesadelo uma blasfêmia, uma oração.

Podias...
Hoje não podes mais; já não é teu.
É um livro já escrito...
Concluído.
Como um livro que tivesse sido escrito por ti, ele um dia lhe será lido, com todos os detalhes, e tu não poderás corrigi-lo. Estará fora de teu alcance.
Portanto,
Agora que o ano terminou, reflita, tome teu velho livro e o folheie com cuidado.
Deixe passar cada uma das páginas pelas mãos e pela consciência;

Faça o exercício de ler a ti mesmo.

Leia tudo...

Aprecie aquelas páginas de tua vida em que tu usaste teu melhor estilo.
Leia também as páginas que gostaria de nunca ter escrito.
Não, não tente arrancá-las.


Seria inútil. Já estão escritas.
Mas tu podes lê-las enquanto escreve o novo livro que lhe será entregue.

Assim, poderá repetir as boas coisas que escreveu, e evitar repetir as ruins.
Para escrever o teu novo livro, tu contará novamente com o instrumento do livre arbítrio, e terás para preencher, toda a imensa superfície do teu mundo.
Se tiver vontade de beijar teu velho livro, beije-o.
Se tiver vontade de chorar, chore sobre ele e, a seguir, coloque-o nas mãos do Criador.
Não importa como esteja...

Ainda que tenha páginas negras, entregue e diga apenas duas palavras: Obrigado e Perdão!!!

E, agora que o novo ano chegou, lhe será entregue outro livro, novo, limpo, branco, todo teu, no qual tu irás escrever o que desejar...

FELIZ LIVRO NOVO!!!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

A Solidão Amiga - Rubem Alves


A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão... O que mais você deseja é não estar em solidão...

Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música... Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa... Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão... A noite estava perdida.

Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, "parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis". A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: "Como se comporta a Sua Solidão?" Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você." Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.

Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga... Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? 

Drummond acha que sim: "Por muito tempo achei que a ausência é falta./ E lastimava, ignorante, a falta./ Hoje não a lastimo./ Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim./ E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,/ que rio e danço e invento exclamações alegres,/ porque a ausência, essa ausência assimilada,/ ninguém a rouba mais de mim.!"

Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos. Sartre chegou ao ponto de dizer que "o inferno é o outro." Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia... 

Mas, voltando a Nietzsche, eis o que ele escreveu sobre a sua solidão:
"Ó solidão! Solidão, meu lar!... Tua voz - ela me fala com ternura e felicidade!
Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas.
Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes.
Ali as palavras e os tempos/poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar."

E o Vinícius? Você se lembra do seu poema O operário em construção? Vivia o operário em meio a muita gente, trabalhando, falando. E enquanto ele trabalhava e falava ele nada via, nada compreendia. Mas aconteceu que, "certo dia, à mesa, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela casa - garrafa, prato, facão - era ele que os fazia, ele, um humilde operário, um operário em construção (...) Ah! Homens de pensamento, não sabereis nunca o quando aquele humilde operário soube naquele momento! Naquela casa vazia que ele mesmo levantara, um mundo novo nascia de que nem sequer suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, sua rude mão de operário, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia no mundo coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão desse instante solitário que, tal sua construção, cresceu também o operário. (...) E o operário adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia."

Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte: "As obras de arte são de uma solidão infinita." É na solidão que elas são geradas. Foi na casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo pela primeira vez e se transformou em poeta.

E me lembro também de Cecília Meireles, tão lindamente descrita por Drummond:
"...Não me parecia criatura inquestionavelmente real; e por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos... Distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente? Por onde estaria a verdadeira Cecília..."
Sim, lá estava ela delicadamente entre os outros, participando de um jogo de relações gregárias que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília estava longe, muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha."

O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão...

A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada) dos outros, em celebrações cheias de risos... Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.

Mas essa conversa não acabou: vou falar depois sobre os companheiros que fazem minha solidão feliz.

Rubem Alves

Publicado em Chiado Magazine - 17 de fevereiro de 2015

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

OTM - Além, Porém Aqui - #RecombinandoAtos



Além, Porém Aqui

O Teatro Mágico


Mudaram o modo de temer

De ceder e saturar!
Da descabida dor (desregrada euforia)...
Discordar!

Anuncia teu dissabor!

Renuncia ao paladar!
Dissecando a flor
Dissertando que ''o viver é não pensar!''

Aturando o tom

De vil alegoria
Maturando o bom!
Se acontecendo!

Acorda coragem em si!

Acolhe a verdade
Acode a saudade e se alcança...
Além!

Mudaram o modo de querer

De perder e perdoar!
Do descabido ardor (desregrada alegria)... se infestar!

Anuncia teu dissabor!

Renuncia ao paladar!
Dissecando a flor
Dissertando ''o que viver é não pensar!''

Aturando o tom

De vil alegoria
Maturando o bom!
Se acontecendo!

Acorda coragem em si!

Acolhe a verdade
Acode a saudade e se alcança...
Além!

Semear o amor!