quinta-feira, 24 de julho de 2014

Padrinho do Divórcio - F.Carpinejar

Arte de Eduardo Nasi

O terapeuta guarda sigilo, e apenas ele pelo jeito.

Virou mania nas discussões de relacionamento empregar o terapeuta como argumento. Ele é sequestrado, citado, profanado dia a dia.

Ao brigar com sua mulher, estará debatendo com ela mais seu terapeuta. São sempre dois contra um. É um ménage psicológico.

Qualquer problema do casal e já se joga a opinião do terapeuta. É um recorte e cole infinito de máximas do consultório ao longo dos desentendimentos de casa.

Dos naipes da disputa, ele surge como um Curinga do convencimento, um fiador das decisões. Quando se perde o domínio, é chamado espiritualmente para reverter o quadro e socorrer sua crença.

Ele é o novo Messias da consciência, só que seus consultados não respeitam o segundo mandamento e tomam seu santo nome em vão.

“Não é o que pensa o meu terapeuta!” é uma das ameaças mais freqüentes nas DRs.

Ou seja, pode discordar de sua esposa, mas não do terapeuta dela. É o voto de Minerva no permanente desempate que é a vida a dois.

Em briga de casal, não se mete a colher, mas se mete a todo instante o psicanalista. O que é um último  recurso para trazer credibilidade para a ofensa.

— Ele diz que eu tenho razão.

— Ele concorda comigo.

Mais honesto fazer terapia de casal, pois você já vem sendo atendido indiretamente, sem nenhuma possibilidade de contraponto e defesa do seu contexto.

— O terapeuta não entende por que não me separo. Eu é que insisto.

Por afirmações como esta, que é criada rejeição à toa das consultas.

Você pretende se salvar denunciando o terapeuta.  Depois não ache estranho quando sua companhia ficar com raiva do divã e se opor à análise. Você acaba de entregar ao marido que ele está contra seu casamento.

Não cuide do que fala ao terapeuta, e sim cuide do que fala sobre o terapeuta.

Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
23/7/2014

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Do Mundo de Drummond - Perder, Ganhar, Viver

Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmuIas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas…
Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.
Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos? Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado. A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.
Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos ou adquirimos, na maioria das cabeças, o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se. Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.
E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?