segunda-feira, 30 de junho de 2014

Separações Líquidas


Casar virou namorar, namorar virou ficar, ficar virou provar.
Acredito que todo mundo casa fácil porque é também muito fácil se separar.
Nos anos 70, o casamento era medido por décadas. Mesmo quando um casamento fracassava, durava no mínimo duas décadas.
Nos anos 80, o casamento era medido por anos. Mesmo quando um casamento desmoronava, durava no mínimo cinco anos.
O casamento hoje é por dia. Como se fosse hotel.
Agora, o matrimônio cobra diária. Todo dia é dia de se separar. E por qualquer coisa.
Las Vegas do divórcio é aqui.
Você pode sair de manhã, eufórico e confiante, extremamente disposto, seguro do romance, e quando voltar à noite não encontrar mais ninguém ao seu lado.
Se cometeu uma falha, nem terá oportunidade de se explicar. Se não errou, nem terá chance de entender e desfazer confusões.
É tão simples se divorciar que ninguém mais pretende se estressar. Não há nem o civilizado e educado aviso de despejo. É dar as costas, largar o passado e seguir adiante. Quebrou o amor, troca! Quebrou o amor, compra outro! Quebrou o amor, não vale investir consertando!
Os casais não brigam mais até cansar para, então, se separar. Não brigam mais até esgotar as possibilidades para, então, se separar. Não tentam durante semanas e semanas expor as dores, as feridas e a raiva para, então, se separar. Não recorrem ao choro, à histeria, ao perdão, ao abraço, ao exorcismo, aos centros religiosos, aos amigos, aos parentes para, então, se separar.
A separação vem antes. A separação é a regra. A separação é o hábito. A separação é seca, definitiva, sem explicações.
As pessoas se separam primeiro para depois discutir. As pessoas se separam primeiro para depois conversar. As pessoas se separam primeiro para depois desabafar o que incomoda.
Elas arrumam todas as malas, esvaziam os armários, realizam a limpa no apartamento e depois, se houver vontade, se encontram e sentam frente a frente para resolver as diferenças.
São uniões interrompidas com silenciadores, distante de estampidos e gritos.
Ninguém se separa de fato, todo mundo deserta, todo mundo abandona a convivência.
É uma irresponsabilidade extraordinária com o outro, é uma indiferença tremenda ao que foi construído com o outro, é um desprezo ao que foi sonhado a dois.
E os motivos podem ser os mais loucos e insignificantes. O desenlace não ocorre mais por justificativas duras como adultério e deslealdade.
Há gente que se separa por incompatibilidade de gênios (expressão que denuncia megalomania, o correto seria incompatibilidade de burros).
Há gente que se separa porque não suporta o medo de ser traído.
Há gente que se separa porque estava muito feliz e não aguentava tamanha pressão.
Há gente que se separa porque se viu entregue ao relacionamento e estava perdendo a identidade.
Há gente que se separa porque não sabia mais o que estava fazendo da vida.
Há gente que se separa porque não esperava que fosse assim.
Atualmente entra-se numa relação e não se fecha a porta – a porta permanece encostada o tempo inteiro.


Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 29/6/2014 Edição N° 17844

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Esperança é o que mais dói - F. Carpinejar


É me acomodar no avião e já adormeço. Nem espero o comissário fechar as portas.

Durante conexão de Galeão para Salgado Filho, escorado na janela, pronto para babar, escuto uma mulher chorando na poltrona da frente.

Sempre vou acordar quando ouvir uma mulher chorando. Meu sono não resiste a mulher chorando.

Ela soluçava ao telefone:

– Você disse que a gente moraria junto depois que terminasse seu treinamento. Você mentiu, você só está me enrolando com promessas. Promessa dói. Esperança dói.

Não alcançava qual o contexto da conversa, mas sua frase produziu muito sentido.

Esperança dói!

Eu quase chorava junto. Ela estava coberta de sentimento mais do que coberta de razão.

Concordava com ela: não minta com esperanças. Minta com qualquer outro sentimento, menos com esperança. Não ofereça esperança se não acredita na relação.

Pense bem antes de falar, pense se realmente deseja cada verbo. Cuidado com aquilo que sonha em voz alta.

Todas as palavras são estrelas cadentes. Prometer é sério, prometer é se comprometer.

Não adianta dizer que só falou, alegar que não fez nada de errado e lavar as mãos no vento. Falar é fazer.

Entenda que a esperança é o que mais machuca. Não há maior tortura do que gerar esperança em vão: é oferecer para tirar.

Não estimule projetos se não está disposto a cumprir, se não é sincero, se não é verdadeiro.

Não diga da boca para fora pelo prazer da hora, pelo romantismo, pelo arrebatamento.

Imaginar já é concretizar. Se não tem segurança com sua companhia, não iluda. Não fique fantasiando casa própria, filhos, cachorro, viagens ao Exterior. Não insufle o porvir para agradar. Não disfarce o pouco sentimento com a eternidade. Não chame o futuro impunemente. Não apele para a emoção à toa.

A fantasia é uma responsabilidade do casal. Pois o amor é o que se vive somado ao que se conversa somado ao que se planeja.

Ao fortalecer intenções, permite que ela ou ele passe a esperar dali por diante.

Somos crianças no amor, ansiosas pela confirmação das expectativas. Enxergamos o que imaginamos, trabalhamos para conseguir o que imaginamos.

Esperança é também parte importante do namoro. Esperança é também lembrança do namoro. Esperança é também memória do namoro. Esperança é também realidade do namoro.

O que foi idealizado a dois é um patrimônio da intimidade, um marco da confiança.

Ninguém sofre numa separação por aquilo que aconteceu, sofrerá por aquilo que não vai mais acontecer. Sofrerá pela perda da esperança mais do que pela perda do amor.


Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2,  24/6/2014
Porto Alegre (RS), Edição N° 
17839

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Reminiscências (*) 22

Dinheiro serve só
para estragar o amor
cultivar a dor
murchar a flor
E amor é algo que
não se pode impor.

Todo este meu lamento
Procuro abafar
Mas este teu afastamento
Mais do que um tormento
Me leva a viajar
Sem um destino alcançar.

Sim!
É amor o que tenho por ti
É puro e tudo o que sinto é sincero
E por ti espero apenas para dizer
Que tu és tudo que eu quero
E tu não irei perder!

Estar sempre juntos e te fazer sorrir
Superar todos problemas
E pôr um fim agora aqui
Despreocupados para onde possam ir
Fazendo apenas o que sempre quis
Todo mundo ser feliz.
Ike Nicotti
04.06.14 às 18:35h


Embarco em um barco
Tenho o hábito de pescar
Habito em um barco
Meu verdadeiro lar.

Me banho na praia
Lugar onde quero estar
Vejo a dança da arraia
Numa noite de luar

No refrão de um clássico
Sigo a remar, nadar e andar
Mantendo sempre o básico
Nunca deixar de pensar.
Ike Nicotti
04.06.14 às 23:25h


(*) Segundo Platão, "lembrança do que a alma contemplou em uma vida anterior, quando, ao lado dos deuses, tinha a visão direta das ideias”.