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domingo, 17 de junho de 2012

A Inconstância Humana - Luís Fernando Veríssimo

                   Ela tem um nariz arrebitado, mas isso não é nada. Nariz arrebitado a gente resiste. Mas a ponta do nariz se mexe quando ela fala, delegado. Isso quem resiste? Eu não. Nunca pude resistir a uma mulher que quando fala a ponta do nariz sobe e desce. Muita gente nem nota. É preciso prestar atenção, é preciso ser um obsessivo como eu.
                   O nariz mexe milímetros. Para quem não está vidrado, não há movimento algum. Às vezes só se nota de determinada posição, quando a mulher está de perfil. Você vê a pontinha do nariz se mexendo, meu Deus. Subindo e descendo. No caso dela também se via de frente. Uma vez ela reclamou, “Você sempre olha para a minha boca quando eu falo”. Não era a boca, era a ponta do nariz. Eu ficava vidrado no nariz. Nunca disse pra ela que era o nariz. Delegado, eu sou louco? Ela ia dizer que era mentira, que seu nariz não mexia. Era até capaz de arranjar um jeito de o nariz não mexer mais.
                   Mas a culpa, delegado, não é do nariz, não é dela e não é minha. A culpa é da inconstância humana. Ninguém é uma coisa só, nós todos somos muitos. E o pior é que de um lado da gente não se deduz o outro, não é mesmo? Você, o senhor, acreditaria que um homem sensível como eu, um homem que chora quando o Brasil ganha bronze, delegado, bronze? Que se emocionava com a penugem nas coxas dela? Que agora mesmo não pode pensar na ponta do nariz dela se mexendo que fica arrepiado? Que eu seria capaz de atirar um dicionário na cabeça dela? E um Aurelião completo, capa dura, não a edição condensada? Mas atirei. Porque ela também se revelou. Ela era ela e era outras.
                   A multiplicidade humana. É isso. A tragédia é essa. Dois nunca são só dois, são 17 de cada lado. E quando você pensa que conhece todos, aparece o 18º. Como eu podia adivinhar, vendo a ponta do narizinho dela subindo e descendo, que um dia ela me faria atirar o Aurelião completo na cabeça dela? Capa dura e tudo? Eu, um homem sensível?
                   Deveria ter desconfiado de alguma coisa quando descobri que o celular dela tocava Wagner. Quem escolhe Wagner para o seu telefone celular? Pode-se saber muita coisa sobre uma pessoa pelo que ela escolhe para tocar quando soa o seu celular. Eu achei engraçado o Wagner, ela um doce de mulher escolhendo o Wagner, mas na hora não dei maior importância. Hoje sei que Wagner era um sinal. Um dos outros, das outras, que ela tinha por dentro, escolheu o Wagner. Foi uma maneira de dizer que o nariz arrebitado não era tudo, que eu não me enganasse com o seu jeitinho de falar, com o apelido que ela me deu, “Guinguinha”, veja o senhor, “Guinguinha”, que só depois eu descobri era o nome de um cachorro que ela teve quando era pequena e morreu atropelado, “Guinguinha”, delegado.
                   Foi uma maneira de dizer que uma das que ela tinha por dentro era uma Valquíria indomável de dois metros, e que se considerava de uma raça superior. Como, delegado? Fagner, não. Wagner. Aquele alemão. Tudo bem, eu também tenho outros por dentro. Por exemplo: nós já estávamos juntos um tempão quando ela descobriu que eu sabia imitar o Silvio Santos. Sou um bom imitador, o meu Romário também é bom, faço um Lima Duarte passável, mas ninguém sabe, é um lado meu que ninguém conhece. Ela ficou boba, disse “Eu não sabia que você era artista”. Ela também não sabia que eu tenho pânico de berinjela. Não é só não gostar, é pânico mesmo, na primeira vez que ela serviu berinjela eu saí correndo da mesa, ela atrás gritando “Guinguinha, o que foi?”. Também sou um obsessivo. Reconheço. E a obsessão foi a causa da nossa briga final. Tenho outros por dentro que nem eu entendo, minha teoria é que a gente nasce com várias possibilidades e quando uma predomina as outras ficam lá dentro, como alternativas descartadas, definhando em segredo, ressentidas. E, vez que outra, querendo aparecer.
                   Tudo bem, viver juntos é ir descobrindo o que cada um tem por dentro, os 17 outros de cada um, e aprendendo a viver com eles. A gente se adapta. Um dos meus 17 pode não combinar com um dos 17 dela, então a gente cuida para eles nunca se encontrarem. A felicidade é sempre uma acomodação. Eu estava disposto a conviver com ela e suas 17 outras, a desculpar tudo, delegado, porque a ponta do seu nariz mexe quando ela fala. Mas aí surgiu a 18ª ela. Nós estávamos discutindo as minhas obsessões. Ela estava se queixando das minhas obsessões. Não sei como, a discussão derivou para a semântica, eu disse que “obsedante” e “obcecante” eram a mesma coisa, ela disse que não, eu disse que as duas palavras eram quase iguais e ela disse “Rará”, depois disse que “obcecante” era com “c” depois do “b”, eu disse que não, que também era com “s”, fomos consultar o dicionário e ela estava certa, e aí ela deu outra risada ainda mais debochada e eu não me aguentei e o Aurelião voou. Sim, atirei o Aurelião de capa dura na cabeça dela. A gente aguenta tudo, não é delegado, menos elas quererem saber mais do que a gente.
                   Arrogância intelectual, não.

(sempre ele: texto de Luís Fernando Veríssimo)

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Amigos: tenho para saber quem eu sou.

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco!
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois ao vê-los loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Fingal O'Flahertie Wills Wilde.
Dramaturgo, escritor e poeta irlandês.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Mulher x Cocaína: Periculosidade e Efeitos


                   A conclusão – não precipitada, apenas preliminar – que se pode extrair de alguns trechos de músicas de determinadas canções, é a de que as mulheres são potencialmente mais periculosas que as “outras” drogas. Refiro-me especificamente à Cocaína e, mais especificamente ainda, aos trechos de duas canções de autoria de Cazuza e Léo Jaime que ora transcrevo:

                                      “(...) E por vc eu largo tudo,
                                      Carreira, dinheiro, canudo (...).”
...................................

                                        “Como é que o cara troca
                                        O brilho da carreira
Por uma carreira de brilho.
Sem saber se o vício,
                                        Distrai ou destrói.”

                   Não obstante o primeiro verso, em seu contexto geral, possuir duplo sentido (talvez pelos próprios conflitos vivenciados pelo autor, que deixo por ora de analisar), pode-se concluir, que o Homem pelo amor por uma Mulher, é capaz de largar tudo; tbém a Cocaína, mas principalmente a sua Profissão, esta fruto de um objetivo talvez planejada e almejada desde a sua infância.

                   Cabe recordar aqui a velha máxima “o trabalho dignifica o homem.”

                   Mesmo que não esteja explícito pelo compositor que o homem deixe de trabalhar, mas apenas largue sua carreira, concluo que qquer outra profissão por ele executada, mas não querida ou desejada, frustre parcialmente seus ideais que, para mim estão acima de tudo.

                   Já a Cocaína, pelo que se depreende no segundo verso, é vista como um elemento prejudicial ao exercício da atividade profissional do Homem, em grau muito inferior à Mulher, pois inclusive por ela (Mulher) ele é capaz de abandonar o uso de referida substância.

                   E tal ponto de vista vem a ser corroborada na segunda canção, pois o autor questiona o fato de abandonar um pelo outro.

                   Para falar a verdade, não questiona sequer isto, se analisarmos profundamente na forma como está exposta. Sim, pq além de por em dúvida a capacidade do Homem em cometer tal ato (e o faz com ares de decepção), interroga ainda, não o abandono total de um pelo outro, mas parcial, que é o “brilho” da carreira ao invés da perda ou cessação de seu exercício.

                   Exemplo disso podemos citar o que ocorreu com o pai da Psicanálise, Sigmund Freud em relação aos estudos da criação e elaboração do analgésico e anestésico, que o tornariam famoso e rico e, no entanto, por dedicação ao consumo da Cocaína, não foi possível concluí-los, deixando tais estudos em segundo plano. Sorte sua ter sido reconhecido pelos pesquisadores oficiais da criação daquelas substâncias, como o maior responsável pelos trabalhos por eles elaborados, enfatizando que não teriam sido possíveis sem a sua participação.

                   Hoje se sabe da importância dos estudos Freudianos passados mais de um século, mesmo que o relato supra tenha feito parte da vida do psicanalista.

                   Pelas letras das canções, podemos concluir que a Mulher é capaz de revirar a cabeça de um Homem, a ponto inclusive de fazê-lo abandonar sua carreira profissional, enquanto que a Cocaína não chega a tal extremo, acarretando isto sim, uma redução/perda da capacidade laborativa do Homem no desempenho de sua atividade profissional...

                   Mulher é foda!!!

                            Mas eita vício bom!!! rsss

                                      E qta dependência...