terça-feira, 27 de agosto de 2013

Vidas inteiras - Adriana Calcanhoto




Não seja por isso
Eu não tenho pressa
Eu posso esperar vidas inteiras
Mas tenha certeza de que lhe interessa
Deixar escapar o ouro do agora
Para que não seja numa tarde dessas
Tarde demais

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Do Mundo de Drummond - Os Ombros Suportam o Mundo


Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram. 
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Dissabores de um sonho


Aceitar o incompreensível


My Sharona Remix


A bendita banalização do relacionamento

INFIÉIS DA PRÓPRIA VIDA 

Nossa vida está perdendo consistência. Espessura. Segurança. Estamos mais sujeitos a mudar do que a insistir.

Estamos mais sujeitos a nos separar do que a permanecer casados.

Estamos mais sujeitos a ir embora do que a voltar para casa.

O mundo está tomado de mutantes, zeligs, camaleões, transformers.

Se algo incomoda, se algo atrapalha, o botão Desapego é rapidamente acionado.

Como não pretendemos sofrer, caminhamos para a total insensibilidade. Deixa-se o começo por outro começo. Não há mais meio ou fim, o que vigora é a desistência.

Substituímos a responsabilidade pela ideia de liberdade.

Experimentar é a lei – fazer patrimônio e futuro não tem sentido.

Anteriormente, nos dedicávamos à família. Agora, nossa obsessão é o prazer pessoal. Danem-se as complicações.

A aparente leveza se assemelha a desenraizamento.

Buscamos chegar logo, não olhar a paisagem. A velocidade é o que nos provoca. Buscamos desembarcar logo num novo destino, não nos vale a estrada. A viagem deve ser curta e indolor, jamais reflexiva e longa.

Não estou sendo dramático. Na infância, tínhamos três canais de tevê. Hoje, são mais de 300. A variedade nos conduz a não nos fixarmos em nada durante grande tempo.

Ter um romance longo é quase uma insanidade, assim como ler um livro de 400 páginas ou assistir a um filme de três horas.

Não oferecemos chance para permanência, para a rotina, para a confirmação das expectativas.

Não toleramos o desgaste, o tentar o possível antes de se despedir. Sacrifício e renúncia são expressões banidas do vocabulário, significam burrice. “Perder tempo com alguém, com tanta gente interessante por aí?” é o que nos dizem.

O oi já é um convite, o tchau já é um adeus, não existe relacionamento seguro e firme que suporte a tempestade de contradições.

São muitos apelos para biografias imaginárias. São muitas opções de ser diferente, que nem descobrimos quem somos.

É sempre alguém nos chamando no Facebook ou nas redes sociais com uma história incrível, extraordinária, afrodisíaca, que é um crime não provar.

É sempre alguém oferecendo conselhos, dicas, sugestões.

Repare. O mundo virou sábio de repente: todos têm soluções, ninguém mais convive com seus problemas.

Não me refiro à infidelidade amorosa, mas ao quanto somos infiéis com o nosso passado.

Não é trocar de parceiro ou parceira, mas trocar de tudo: largar emprego, cidade, amigos, esportes, manias.

Troca-se de mentalidade mais do que de opinião.

E é tão fácil descartar, difícil é refinar a própria vida.

Mas se você concluiu a leitura desta crônica, ainda há esperança.

Esperança de não virar a página por um momento.

Fabrício Carpinejar

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Desejos

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.


Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconsequentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,


Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.


Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.


Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.


Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.


Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.


Desejo que você descubra, com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.


Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.


Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga `Isso é meu`,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você, mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.


Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.

Victor Hugo (1802 - 1885, França)

Tudo que sei... é que nada sei!

"Sabe... hoje eu não sei mais o que eu sinto por ti, eu sei que te amei e muito, como nunca pensei amar alguém, mas nesses últimos dias algo mudou aqui dentro, aquele frio na barriga, os ciúmes, todo o desejo que eu sentia por ti, simplesmente me deixaram, sumiu, acabou, não sei dizer o que aconteceu, não apareceu ninguém melhor do que tu, talvez nem apareça. 

Hoje eu te olho com ternura, te vejo como uma menininha que precisa de cuidados, e como eu queria poder cuidar de ti. 

Às vezes penso que eu continuo te amando, o amor não acabou, nem morreu, eu guardei ele aqui dentro de mim, por medo de perder, de não conseguir mais ficar do teu lado sem gritar que te amo, eu guardei meu amor por não querer sofrer mais por ti, eu guardei meu amor pra ficar assim pertinho, do teu lado, em silêncio. 

Eu guardei meu amor por ti aqui dentro do meu coração, onde poucos ousaram chegar, mas tu conseguiu, chegou e ficou, e parece que vai ficar pra sempre."

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Da Alma Confusa

O abade Pastor estava certa tarde no mosteiro de Sceta quando recebeu a visita de um ermitão.

"Meu orientador espiritual não sabe como me dirigir", disse o recém-chegado. "Devo deixá-lo?"

O abade Pastor nada disse, o ermitão voltou para o deserto. Uma semana depois, foi de novo visitar o abade Pastor.

"Meu orientador espiritual não sabe como me dirigir", disse. "Resolvi deixá-lo."

"Estas são palavras sábias", respondeu o abade Pastor. "Quando um homem percebe que sua alma não está contente, ele não pede conselhos - mas tomas as decisões necessárias para preservar sua caminhada nesta vida".

"A vida é uma equação que será resolvida se dermos os devidos valores às incógnitas."
(Georges Najjar Jr.)

"É a mudança repentina… ela aparece quando estamos enfrentando algo que não estamos dando conta. É inútil pedir conselhos quando ela aparece, ás vezes nem dá tempo… a mudança repentina vem quando a gente menos espera, não dá tempo pra pensar, pra raciocinar, ela nos arrasta e nos faz rasgar os papéis onde está escrito o passado.
Deve ser por isso que ela aparece, pra dar espaço ao novo e esquecer o não pode ser mudado."
(Leandro Domingues)


Publicado em 06/08/13 por Paulo Coelho no site http://g1.globo.com/platb/paulocoelho

Do Tratamento

Nos diz K. Kasey:

"Temos sempre a escolha de ser críticos diante de qualquer ideia nova. Ou podemos também ser gentis e compreensivos; tudo depende de nós".

"Quando estamos em paz com nossa alma, geralmente nos mostramos abertos para o milagre da vida. Por outro lado, quando nos sentimos inseguros e inúteis, nos comportamos com ironia e sarcasmo, diante dos sonhos e ideias de nosso semelhante".

"Este comportamento termina por nos afastar de nossa própria salvação. Existe, entretanto, uma maneira de escapar desta armadilha; mesmo estando no mais profundo desespero, devemos procurar agir com amor, sabedoria e calor humano".

"Esta decisão consciente, embora custe muito no princípio, termina dando excelentes resultados. Porque o mundo é um espelho, e devolve aquilo que projetamos nele".


Publicado por Paulo Coelho em http://g1.globo.com/platb/paulocoelho