terça-feira, 16 de agosto de 2016

Pais e Filhos


MINHA MÃE ESTAVA A CAMINHO DA CLÍNICA

            “Uma amiga estava dirigindo, chovia bastante naquela terça-feira. As duas estavam nervosas, a situação, o temporal, as ruas alagadas. E a ilegalidade do que faziam. As duas atravessaram a cidade, pegaram aquela avenida que passa na beira do mar, pararam em um sinal vermelho na subida de um morro. Estavam há vários minutos sem conversar, em silêncio total dentro do carro. Dentro do fusca só o barulho da chuva forte batendo na lataria. A minha mãe estava indo me abortar.

            Acontece que meu pai, quero dizer, o homem que engravidou minha mãe, não queria ser pai. Tinha outra vida, outras prioridades. O homem tinha outros planos. Não era o homem pra ser meu pai. Talvez nenhum homem seria. Talvez minha mãe não conseguisse me criar sozinha. Talvez não era pra ser.

            Existem vários tipos de pai. Desatentos, inseguros, dedicados, ocupados, atrasados, estressados, agitados, brincalhões. Há pais que fazem tudo, e há pais que não fazem nada. Há pais que ajudam no tema, dão banho, fazem aviãozinho com a colher, contam histórias antes de as crianças dormirem. Há pais que ensinam a andar de bicicleta, que levam no estádio, que dormem no sofá e deixam os filhos dormir em cima. Pais que deixam os filhos fazer tudo. Distantes, carinhosos, inconvenientes, moderninhos. Há pais de todos os tipos.

            E há pais que decidem não ser pais.

            Foi o caso do homem por quem minha mãe se apaixonou. E é o caso de vários pais. Essa não é nenhuma história extraordinária, nem nada. É uma história bastante comum, na verdade. Há homens que não querem ter filhos. E, por favor, me respondam como isso pode acontecer? Como um pai pode não querer ser pai? Não sabe tudo o que irá perder!

            Uma vez uma senhora escreveu uma carta a Kurt Vonnegut, meu escritor favorito. Ela queria saber se, na opinião do sr. Vonnegut, que tanto tinha escrito sobre o terror da guerra e a má conduta crônica da raça humana, uma pessoa deveria ter filhos. O Sr. Vonnegut respondeu: “Não faça isso! Era o que eu queria lhe dizer. (...). Mas respondi que o que quase fazia valer a pena o fato de estar vivo pra mim, além da música, eram todos os santos que eu encontrava, que podiam estar em qualquer lugar”. (*)

            Este livro é dedicado às pessoas que acreditaram nesses santos.

            Não quero parecer catastrófico nem nada, mas é um ato de fé colocar filhos no mundo hoje. A previsão é de um futuro caótico, de mudanças climáticas, superpopulação, doenças epidêmicas e aumento da violência urbana. Ter filhos é acreditar no contrário disso tudo. Todo pai é um otimista.

            Ter filhos é ter fé em um futuro melhor. Um mundo onde nenhuma dificuldade é desculpa para fazer mal a outra pessoa. Um futuro onde as pessoas se respeitam mais e onde existe gente que faz o bem sem pedir algo em troca. Faz o bem porque é assim que tem que ser. Não por medo do inferno ou promessa de ir ao céu. Não porque terão alguma vantagem com isso. Não porque outras pessoas estão olhando. Mas porque isso é o que nos faz humanos.

            Naquele fusca barulhento, naquela terça-feira chuvosa, naquele sinal vermelho na subida de um morro minha mãe achou melhor voltar pra casa. Depois ela ligava pra remarcar. E depois foi ficando pra depois, e ela foi dando um jeito, e eu acho que conseguiu um emprego, e a barriga foi crescendo, e a barriga era eu. E eu nasci. E minha mãe foi meu pai. E tenho certeza que não foi fácil pra ela, mas aqui estou eu.”

(*) A man without a country (2005).


Texto extraído do livro “O papai é pop” de autoria de Marcos Piangers

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