quarta-feira, 29 de março de 2017

Caráter - Luís Fernando Veríssimo


            A gente fala mal do caráter do brasileiro, mas a verdade é que poucos povos têm um caráter forte e bom como o nosso. É tão fácil roubar no Brasil, são raras as tentações e tão poucas as probabilidades de castigo que só um caráter incomum explica a honestidade de quem não rouba. É fácil ser honesto onde, por exemplo, as leis contra a corrupção são aplicadas com rigor. As pessoas não têm a oportunidade de testar seu caráter, como nós. Morrem sem saber se são honestas mesmo ou só temem a punição. Aqui você pode escolher se quer ser virtuoso ou não. É uma escolha difícil, pois nada a determina, nada a influencia. Sua escolha não afetará nada salvo o seu próprio autoconceito. Não mudará o seu prestígio e o seu status - a não ser, claro, que a decisão de ser honesto signifique um abalo nas suas finanças, quando então você certamente sentirá uma certa reprovação social. Aqui as leis contra a corrupção, de tão pouco invocadas, são esquecidas. Tanto que o Governo acaba de propor, como novidade, leis anticorrupção que já existiam e nem ele sabia. Além de repetitivas, as novas leis redimem os antigos corruptos, que podem dizer que o que eles faziam só agora é pecado. Antes podia.
            Só a honestidade obsessiva explicava o fato de todo mundo não roubar da Previdência, já que recém estão descobrindo como controlar suas contas e prevenir suas fraudes. Que notável recato, que santidade brasileira sustava a mão de quem não acrescentava um zero à quantia a pagar e ficava com a diferença, mesmo sabendo que não seria descoberto e se fosse não arriscaria nada! Agora critica-se injustamente o uso político de recursos da LBA. São tantos os recursos e de tal natureza - comida, agasalho, coisas básicas para o voto agradecido - que colocá-los à disposição de qualquer mortal para usar a sua discrição com equanimidade e lisura equivale a um desafio desigual ao caráter, a uma covardia. Mesmo para um mortal brasileiro. E, no entanto, alguns (não muitos, é verdade) fizeram justamente isto, mesmo que a tradição justificasse o contrário.
            Grande caráter, o do brasileiro. Caráter voluntário, caráter espontâneo, caráter por conta própria. O Brasil é uma provação pela qual a maioria dos seus filhos passa sem sucumbir, mesmo vivendo neste ambiente. Se a honestidade ainda desse algum por fora, mas não dá.

            No Brasil o caráter é a sua própria recompensa. Quer dizer, ainda por cima mal pago.

Publicado no Jornal Zero Hora
Edição de 29 de agosto de 1991.

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