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quinta-feira, 24 de março de 2016

Sherlock Holmes x Sigmund Freud - A Cocaína

(...) A utilização da cocaína associada à morfina, ou como alternativa a esta, não se limitava exclusivamente à América. Sir Arthur Conan Doyle era um reconhecido usuário de cocaína, como seu famoso detetive, que utilizava tanto a cocaína quanto a morfina. Uma ampla comparação entre o interesse de Holmes e o de Freud pela cocaína é apresentada em ”Sherlock Holmes e Sigmund Freud”, de David Musto. A obsessão de Holmes pela droga é vivamente descrita por Watson nos parágrafos iniciais de O Signo dos Quatro (1888):

            Sherlock Holmes pegou o frasco sobre a lareira e as seringa hipodérmica no elegante estojo de pelica. Com seus longos, brancos e nervosos dedos, ajustou a delicada agulha e enrolou o punho esquerdo da camisa. Por um breve tempo, seus olhos se fixaram pensativos no antebraço e no pulso vigorosos, inteiramente marcados por inúmeras picadas. Por fim, introduziu até o fundo a ponta fina, pressionou o pequeno êmbolo e, com um longo suspiro de satisfação, deixou-se cair de novo na poltrona forrada de veludo.
            Havia muitos meses que eu testemunhava essa cena três vezes ao dia, mas o hábito não me resignara a ela. Pelo contrário, sua visão me irritava cada dia mais, e todas as noites a consciência me pesava, ao pensar que havia perdido a coragem para protestar. Repetidas vezes gravara na memória a promessa solene de abrir minha alma a respeito do assunto, mas no ar frio e displicente de meu companheiro havia algo que o tornava o último homem com quem se teria vontade de tomar qualquer atitude que se assemelhasse a uma liberdade. Sua grande capacidade, sua conduta irrepreensível e a prova que eu tivera de suas muitas qualidades extraordinárias tornavam-me tímido e relutante em contrariá-lo.
            Naquela tarde, contudo, fosse pelo Beaune que eu tomara no almoço ou pela exasperação adicional produzida pela extrema determinação de seu procedimento, senti de repente que não mais poderia calar.
            ̶  O que é hoje, morfina ou cocaína?  ̶  perguntei.
            Ele ergueu languidamente os olhos do velho volume de couro negro que havia aberto.
            ̶  É cocaína,   ̶  disse  ̶  uma solução de sete por cento. Gostaria de experimentar?
         ̶  Não, de modo algum,  ̶  respondi bruscamente  ̶  Minha constituição ainda não se refez da campanha afegã. Não posso me permitir submetê-la a um esforço adicional.
            Ele sorriu da minha veemência.  ̶  Talvez você tenha razão, Watson,  ̶  disse.  ̶  Creio que ela tenha uma influência fisicamente negativa. No entanto, acho-a tão transcendentalmente estimulante e clarificadora para a mente, que o seu efeito secundário é uma questão de pequena importância.
            ̶  Mas considere!  ̶  eu disse gravemente.  ̶  Pense no custo! Talvez, como você diz, seu cérebro esteja desperto e excitado, mas é um processo patológico e mórbido, que envolve crescente alteração dos tecidos e pode acabar levando a uma debilidade permanente. Pense na reação sinistra que toma conta de você. Seguramente não vale a pena. Por que deveria, por um simples prazer passageiro, por em risco toda essa capacidade de que foi dotado? Lembre-se de que falo não apenas como um camarada ao outro, mas como um médico a alguém por cuja constituição ele é até certo ponto responsável.
            Ele não pareceu ofendido. Ao contrário, juntos as pontas dos dedos e apoiou o cotovelo nos braços da poltrona, como quem aprecia a conversa.
            ̶  Minha mente   ̶  disse   ̶  se rebela contra a estagnação. Dê-me problemas, dê-me trabalho, dê-me o mais enigmático criptograma ou a mais intrincada análise, e eu estou no meu próprio ambiente. Posse então dispensar estimulantes artificiais. Mas detesto a rotina monótona da existência. Anseio pela exaltação mental. É por isso que escolhi a minha profissão específica, ou melhor, criei-a, pois sou o único no mundo.
             ̶  ... Permite-me perguntar se tem agora alguma investigação profissional em andamento?
            ̶  Nenhuma. Daí a cocaína. Não consigo viver sem trabalho intelectual. Para que mais vale a pena viver? Olhe pela janela. Já houve um mundo tão enfadonho, horrível e inútil? Veja como o nevoeiro amarelo rodopia rua abaixo entre as casas encardidas. O que poderia ser mais irremediavelmente prosaico e material? Qual é a vantagem de ter capacidades, doutor, quando não se tem campo para aplicá-las? O crime é lugar-comum, a existência é lugar-comum, e somente as qualidades que são lugares-comuns têm alguma função sobre a terra.

         Em resposta às perguntas de Watson sobre como o detetive poderia ter sido beneficiado pela conclusão bem-sucedida da saga O signo dos quatro, descobrimos que, nas últimas linhas do livro, Holmes está de volta ao ponto em que a aventura teve início:

             ̶  Essa divisão não me parece justa   ̶  observei.   ̶  Você fez todo o trabalho no caso. Eu ganhei uma esposa, Jones ganhou o mérito; diga-me, o que resta para você?
              ̶  Para mim   ̶  disse Sherlock Holmes,   ̶   ainda resta o frasco de cocaína.  ̶  E esticou a longa mão branca para apanhá-lo.
Texto extraído do livro Freud e a Cocaína

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